Quinze anos após o ensaio seminal de Marc Andreessen, "Why Software Is Eating the World", a tese de que o código dominaria cada faceta da economia enfrenta um teste de realidade. Embora as empresas de tecnologia tenham acumulado valor de mercado sem precedentes e os modelos de linguagem tenham capturado a imaginação global, a premissa de uma supremacia puramente digital mostra sinais claros de exaustão. A economia global, em sua essência, permanece ancorada no mundo físico.
Dados da International Data Center Authority indicam que a economia digital representa apenas 15% do PIB global. O restante, a vasta maioria, é composto por habitação, energia, transporte e alimentação — setores que, embora utilizem software, não são definidos por ele. A leitura aqui é que, apesar da onipresença dos smartphones, a vida humana e as transações econômicas mais fundamentais ainda operam no domínio dos átomos, e não dos bits.
A falácia da escala infinita
A crença de que o software poderia devorar qualquer indústria baseava-se na ideia de custos marginais próximos de zero e escalabilidade infinita. No entanto, gigantes como a Amazon, frequentemente citadas como exemplos dessa transição, revelam uma trajetória oposta: a necessidade imperativa de investir pesadamente em infraestrutura física. A empresa não apenas vende online, mas opera uma malha logística densa com armazéns e frotas de caminhões.
O movimento de empresas digitais em direção ao físico, como a Netflix abrindo centros de entretenimento, reforça que o valor econômico está cada vez mais atrelado à experiência tangível. O software é uma ferramenta poderosa de otimização, mas a complexidade do mundo real impõe um teto à sua capacidade de substituição. O mundo não é um software, e a tentativa de tratá-lo como tal ignora as limitações intrínsecas da matéria.
A ciência de materiais como nova fronteira
Se o software puro atingiu um limite de utilidade, a inovação está migrando para a manipulação da realidade física através de métodos computacionais. A transição da ciência de materiais, tradicionalmente um setor de tentativa e erro, para uma disciplina baseada em simulações digitais exemplifica essa mudança. O trabalho iniciado por Gerd Ceder no MIT e o surgimento de empresas como a Citrine Informatics demonstram como a IA pode acelerar o desenvolvimento de novos materiais com propriedades específicas.
Essa abordagem não substitui a matéria, mas a utiliza como base para a criação de valor. A perda de informação inerente à modelagem digital do mundo físico continua sendo um desafio, mas o desenvolvimento de novas arquiteturas, como a computação quântica, promete aumentar a fidelidade dessas simulações. A tecnologia está deixando de ser o fim para se tornar o meio de engenharia da realidade física.
O papel da biologia na próxima década
O reconhecimento do AlphaFold, desenvolvido por Demis Hassabis e John Jumper, marca um ponto de inflexão na biotecnologia. Ao prever a estrutura de proteínas com precisão, a inteligência artificial permite que a descoberta de fármacos ocorra em velocidades antes impossíveis. Este é o exemplo mais claro de como o software pode atuar como um acelerador para processos biológicos que, até então, eram puramente experimentais e lentos.
O impacto para stakeholders, como empresas farmacêuticas e reguladores, é profundo. A capacidade de modelar processos biológicos reduz o risco de capital investido e encurta ciclos de desenvolvimento, mas também exige uma nova governança sobre o que é possível criar. A biotecnologia, assim como a ciência de materiais, coloca a tecnologia a serviço da resolução de problemas que o software, isoladamente, nunca conseguiria resolver.
O que esperar da integração entre bits e átomos
A questão central para os próximos anos não é se o software comerá o mundo, mas como ele será integrado à infraestrutura física para torná-la mais eficiente. A incerteza reside na velocidade com que essas novas tecnologias de simulação serão adotadas em larga escala pelos setores tradicionais, que possuem inércia e regulamentações complexas. O sucesso não será medido apenas pelo crescimento das empresas de tecnologia, mas pela capacidade de transformar a base material da economia global.
O mercado de venture capital e os estrategistas corporativos devem observar como o capital se desloca de plataformas puramente digitais para empresas que possuem ativos físicos ou que solucionam gargalos de engenharia. O futuro pertence àqueles que conseguirem traduzir o poder do processamento computacional para a complexidade da matéria. A era do software puro parece estar dando lugar a uma era de tecnologia aplicada à realidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





