A insurtech Stand anunciou nesta quinta-feira (15) a captação de US$ 70 milhões em uma rodada Série C, alcançando uma avaliação de mercado de US$ 1 bilhão. A empresa, que opera em seguros para riscos de incêndios florestais na Califórnia e furacões na Flórida, aposta em uma abordagem inovadora que utiliza tecnologia de "gêmeos digitais" e inteligência artificial para precificar o risco de forma mais granular e precisa.
Tradicionalmente, o mercado de seguros tem precificado riscos como incêndios florestais com base em dados históricos e localização geográfica, como códigos postais. A Stand argumenta que essa metodologia é falha, pois agrupa propriedades com perfis de risco muito distintos. Em vez disso, a empresa desenvolveu uma tecnologia proprietária que cria "gêmeos digitais" de cada residência, simulando como um evento específico, como um incêndio florestal, poderia afetar aquela propriedade em particular, considerando materiais de construção, proximidade de vegetação, direção do vento e condições meteorológicas.
Análise: A precisão dos gêmeos digitais no combate ao risco
O diferencial da Stand reside na aplicação de modelos de dinâmica de fluidos computacional e física, inspirados na engenharia aeroespacial, para analisar o risco de incêndio. Matt DiStefano, diretor de ciência da empresa, compara o processo ao desenvolvimento de aviões, onde cada componente é simulado para prever seu comportamento. Essa abordagem permite uma análise detalhada, onde a remoção de uma única árvore próxima a uma residência pode reduzir o prêmio do seguro em mais de US$ 1.100. A empresa alega que seu modelo, o Stand World Model, baseado em IA avançada, alcançou uma taxa de acerto de cerca de 85% em backtests ao prever resultados de incêndios, superando os modelos convencionais que atingem apenas 50% a 55% de precisão.
Essa precisão promete mudar a relação entre segurados e seguradoras. DiStefano critica os modelos atuais por criarem um "score" de risco imutável, semelhante a um score de crédito, que não reflete as ações do proprietário para mitigar riscos. Ele cita centenas de histórias de clientes que investiram em melhorias em suas casas, mas continuaram a ter seus seguros não renovados devido a avaliações genéricas. Com a tecnologia da Stand, proprietários podem visualizar o impacto de suas ações de mitigação, recebendo recomendações concretas para reduzir sua exposição ao risco e, consequentemente, o custo do seguro.
O mecanismo por trás da precificação dinâmica
A tecnologia da Stand não se limita a simular riscos; ela atua como um motor para a precificação dinâmica e personalizada. Ao criar um "gêmeo digital" de cada propriedade, a empresa consegue isolar variáveis cruciais que afetam a probabilidade de um imóvel ser consumido por um incêndio. Esses modelos consideram não apenas a estrutura física da casa, mas também o ambiente circundante, como a densidade da vegetação, o tipo de árvores e a distância até a residência. A simulação leva em conta ainda fatores dinâmicos como direção do vento e condições climáticas no momento do evento.
O desenvolvimento de um "modelo de mundo" interno de IA, o Stand World Model, que compreende as leis da física, permite que a empresa execute essas simulações de forma quase instantânea. Isso possibilita a geração de cotações de seguro em tempo real e a demonstração do impacto de mudanças de mitigação no preço do seguro, transformando o processo de cotação e renovação. Dan Preston, CEO e cofundador, enfatiza que "desastres seguem as leis da física, e o seguro também deveria". Essa filosofia guia a estratégia da empresa em trazer uma abordagem científica e baseada em dados para um setor tradicionalmente reativo e estatístico.
Implicações para o mercado e o consumidor
A captação de US$ 70 milhões, liderada pela Saga Ventures, com participação de fundos como Lowercarbon e Eclipse, sinaliza um forte interesse do mercado em soluções inovadoras para gestão de riscos climáticos. A Stand planeja usar os recursos para expandir suas operações para outras regiões propensas a incêndios no oeste dos EUA e para o sudeste, com planos futuros de cobrir outras ameaças como tempestades convectivas, geadas e inundações. A empresa também anunciou a contratação de Drew Saad como presidente de propriedade e acidentes, e Tony Landi como diretor financeiro, para liderar essa expansão.
Para os consumidores, essa abordagem representa a possibilidade de ter um seguro mais justo e acessível, onde as ações de prevenção e mitigação são recompensadas. A capacidade de transformar o seguro de um produto passivo para um ativo de gestão de risco pode empoderar proprietários a protegerem seus bens de forma mais eficaz. Para o mercado de seguros, a Stand introduz um novo paradigma, desafiando modelos de precificação estabelecidos e impulsionando a adoção de tecnologias avançadas para uma avaliação de risco mais precisa e preditiva.
Perguntas em aberto e o futuro da precificação de riscos
Embora a Stand apresente resultados promissores em backtests, a validação contínua de sua tecnologia em cenários reais e em larga escala será crucial. A capacidade de sustentar o crescimento de 15% ao mês em múltiplos estados e contra diferentes tipos de desastres naturais ainda será testada. A aceitação dessa nova metodologia de precificação por reguladores e pelo mercado de resseguros, que inclui nomes como Arch e RenaissanceRe, também demandará tempo e demonstração de confiabilidade a longo prazo.
O sucesso da Stand pode pavimentar o caminho para outras insurtechs que buscam aplicar IA e simulações avançadas na precificação de riscos. Resta saber se essa abordagem se tornará o novo padrão da indústria ou se permanecerá uma solução de nicho para riscos específicos. A capacidade de integrar essa tecnologia em políticas de longo prazo e em modelos de financiamento de mitigação, como sugerido pelo cofundador Jason Mueller, pode ser o próximo passo para consolidar seu modelo de negócios e seu impacto no setor.
A empresa, que já segurou mais de US$ 10 bilhões em propriedades, demonstra um apetite por inovação em um setor que enfrenta desafios crescentes devido às mudanças climáticas. A jornada da Stand, de uma startup com uma visão audaciosa a um unicórnio tecnológico, reflete a busca contínua por soluções mais inteligentes e adaptativas na gestão de riscos. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





