O designer austríaco Stefan Sagmeister, conhecido por seus projetos inovadores e provocativos, apresenta uma nova forma de dar vida aos dados: através de sapatos. Em sua exposição "Finally, Something Good", em cartaz na Gaîté Lyrique, em Paris, Sagmeister revela dois modelos de calçados criados em parceria com a marca alemã Ekn. Estes não são meros acessórios de moda, mas sim infográficos funcionais que convidam à reflexão sobre temas globais urgentes, como a crise climática e a desigualdade social.
Sapatos que contam a história da energia renovável
O primeiro modelo, batizado "Bring It On", é um tênis multicolorido que ilustra a evolução da energia renovável. Utilizando dados do Statistical Review of World Energy de 2024, do Energy Institute, o design do tênis reflete a proporção de diferentes fontes de energia. Painéis de couro em cores distintas representam a contribuição de cada fonte: o amarelo vibrante para a energia hidrelétrica, o preto para a eólica, o rosa para a solar e o vermelho para outras renováveis. Sagmeister observa com ironia que o próprio design já se tornou obsoleto, pois os dados de 2025 indicam que a energia solar ultrapassou a eólica pela primeira vez, exigindo uma atualização no painel rosa. Essa obsolescência programada, inerente à própria natureza dos dados em constante mudança, reforça a ideia de que o progresso, embora positivo, exige atenção contínua.
Desvendando a crise da falta de moradia em cada passo
O segundo calçado, uma bota chamada "Like a Complete Unknown", aborda a complexa questão da falta de moradia. O design utiliza círculos de tamanhos variados para representar a incidência de pessoas em situação de rua por 100.000 habitantes em seis países, com base em dados da OCDE. Os círculos maiores destacam os Estados Unidos (76 pessoas por 100.000) e a Alemanha (46), seguidos pelo Reino Unido (16), França (8), México (5) e Japão (2). Sagmeister reconhece as limitações na coleta de dados entre países, mas argumenta que a disparidade, especialmente em países mais pobres como o México, sugere mais do que meras diferenças metodológicas. Sua experiência como voluntário na Coalition for the Homeless, em Nova York, o fez questionar por que alguns países lidam com o problema de forma mais eficaz que outros, ressaltando que a questão não é apenas de contagem, mas de decisões políticas e sociais.
Arte, dados e doação: um dilema ético
Ambos os sapatos estão disponíveis para compra por mais de US$ 300, com 10% do valor destinado a organizações sem fins lucrativos: o think tank Future Cleantech Architects para o "Bring It On" e a Coalition for the Homeless para o "Like a Complete Unknown". Sagmeister não ignora a aparente dissonância entre o preço elevado do calçado e a gravidade dos temas que ele representa, especialmente a falta de moradia. Ele admite que a doação não apaga essa contradição, mas espera que a arte funcional sirva como um lembrete de que os dados sobre energia renovável e falta de moradia não são destinos imutáveis. A variação de incidência entre países, ele argumenta, demonstra que são resultados de decisões que podem ser tomadas de maneiras diferentes, abrindo caminho para soluções mais equitativas e sustentáveis.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company



