O Supremo Tribunal Federal (STF) deve concluir nesta sexta-feira (22) o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 7791, que redefine o modelo orçamentário da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Com quatro votos favoráveis ao relator, ministro Flávio Dino, a Corte sinaliza o fim da retenção integral da taxa de fiscalização pelo Tesouro Nacional, propondo que 70% desse montante seja destinado diretamente à autarquia.

A mudança não é meramente contábil, mas estrutural. Segundo a decisão liminar de Dino, o modelo atual impõe uma “asfixia orçamentária” incompatível com as necessidades de um mercado de capitais que movimenta bilhões. Enquanto a arrecadação prevista com taxas de fiscalização para 2025 chega a R$ 1,2 bilhão, o orçamento da CVM para 2026 estava limitado a R$ 41 milhões, um abismo que o STF agora busca corrigir.

O fim da atrofia institucional

A tese de que a CVM vive um processo de desmonte não é nova, mas ganha peso jurídico com a intervenção do STF. Historicamente, a autarquia foi tratada como uma unidade administrativa subordinada aos humores fiscais do governo central, perdendo autonomia para investir em tecnologia de ponta e capital humano. A leitura aqui é que, ao separar o caixa da CVM do Tesouro, o Judiciário reconhece que a regulação financeira exige independência financeira para ser eficaz.

Este movimento reflete uma mudança de paradigma sobre o papel das agências reguladoras no Brasil. O argumento de que a taxa de fiscalização serve para custear o serviço de regulação — e não para compor o superávit primário da União — ganha força. A atrofia, citada por Dino, refere-se à incapacidade da CVM de acompanhar a sofisticação das fraudes e a velocidade das transações digitais, o que coloca em risco a própria credibilidade do mercado de capitais nacional.

Mecanismos de pressão e governança

A eficácia dessa nova autonomia orçamentária dependerá da capacidade de execução da autarquia. A Advocacia-Geral da União (AGU) tentou postergar a medida para 2027, alegando riscos ao equilíbrio das contas públicas, mas o sinal dado pelo STF é de urgência. A obrigatoriedade de planos emergenciais e de médio prazo imposta pelo relator sugere que o STF não quer apenas dar mais dinheiro à CVM, mas monitorar como esse capital será convertido em fiscalização real.

O mecanismo de incentivos muda drasticamente. Com mais recursos, a autarquia perde a desculpa da falta de verba para justificar falhas em investigações complexas, como as recentes envolvendo o Banco Master. A pressão recai agora sobre a nova gestão, liderada por Otto Lobo. A exigência de recomposição do colegiado com quadros técnicos, defendida por servidores de carreira, torna-se o próximo ponto de atrito entre a necessidade de independência e as indicações políticas tradicionais.

Stakeholders no centro da disputa

Para o mercado, a decisão é um divisor de águas. Investidores institucionais e pequenos acionistas, historicamente vulneráveis a fraudes, podem ver na CVM mais robusta um guardião mais atento. Contudo, a tensão entre o governo federal — que vê na taxa de fiscalização uma fonte de receita — e a necessidade de regulação independente deve continuar, mesmo com a decisão do STF.

No ecossistema brasileiro, a expectativa é que a CVM consiga finalmente modernizar seus sistemas de monitoramento de dados, que hoje operam em descompasso com a alta frequência do mercado. A questão que fica para os reguladores é se o aumento de receita será acompanhado de uma desburocratização dos processos internos, permitindo que a autarquia seja mais ágil sem perder a precisão na punição de irregularidades.

O futuro sob novas lentes

O que permanece incerto é a velocidade com que essa injeção de recursos se traduzirá em ações concretas de fiscalização. A estruturação de planos de médio prazo é um passo necessário, mas a execução enfrenta o desafio histórico de uma estrutura administrativa rígida e a necessidade de preencher as vagas abertas no colegiado com nomes que gozem de confiança técnica.

Os próximos meses servirão como termômetro para a gestão de Otto Lobo. Observar como a CVM priorizará a alocação desses novos recursos — se em tecnologia, contratação de especialistas ou infraestrutura — será fundamental para entender se a decisão do STF será, de fato, o ponto de virada para a integridade do mercado de capitais brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times — Mercados