Rio de Janeiro, 2012
Dois empreendedores apostaram contra o cartel das maquininhas no Rio de Janeiro. André Street e Eduardo Pontes fundaram a Stone em 2012, em um mercado dominado por Cielo e Rede. O setor operava com taxas opacas e contratos de fidelidade extensos. A empresa dedicou os dois anos seguintes à obtenção de licenças junto à Visa e Mastercard, um processo regulatório complexo que antecedeu sua entrada comercial.
Em 2014, a Stone iniciou suas operações como adquirente independente, sem um banco tradicional como controlador. O foco recaiu sobre pequenas e médias empresas, que enfrentavam taxas de MDR entre 3% e 5%. O diferencial competitivo residia no atendimento humano, transparência no aplicativo e liquidação em D+1. A expansão para São Paulo, iniciada em 2015, consolidou a força comercial da companhia.
Três inflexões definem a trajetória
Aquisição, IPO bilionário e aposta arriscada em software.
A compra da Elavon do Brasil em 2016, por aproximadamente US$ 100 milhões, marcou a primeira grande escala. O movimento trouxe uma carteira de clientes corporativos e maturidade operacional. Paralelamente, a estrutura da StoneCo foi consolidada para preparar a governança da empresa para o mercado de capitais.
Em outubro de 2018, a Stone realizou seu IPO na Nasdaq. A oferta primária levantou US$ 1,22 bilhão, com um aporte adicional de US$ 100 milhões da Ant Financial, totalizando US$ 1,5 bilhão. O valuation no fechamento do primeiro pregão atingiu US$ 9 bilhões, com as ações subindo 30% no debut. Warren Buffett, através da Berkshire Hathaway, tornou-se investidor, validando a tese de crescimento.

Entre 2020 e 2021, a empresa diversificou sua atuação com o lançamento da Conta Stone e da marca Ton, esta última em parceria estratégica com o Grupo Globo. A agressividade na oferta de crédito, contudo, revelou fragilidades no modelo de gestão de risco. O prejuízo de R$ 150 milhões no segundo trimestre de 2021 forçou a suspensão da oferta de crédito e uma revisão severa da estratégia.
Em 2020, a empresa adquiriu a Linx por R$ 6,7 bilhões após uma disputa acirrada com a Totvs. A tese previa o bundling de pagamentos, ERP e crédito. A integração, entretanto, provou ser complexa e onerosa. Em 2024, a Stone reconheceu um impairment de R$ 3,6 bilhões. Em julho de 2025, a Linx foi vendida de volta para a Totvs por R$ 3,05 bilhões, consolidando uma perda superior a R$ 3,6 bilhões no ciclo de software.
Como a Stone ganha dinheiro hoje
Take rate de 2,58% sobre R$ 560 bilhões processados.
O modelo de receita atual baseia-se em três pilares: MDR sobre transações de cartão e Pix QR Code, tarifas de banking e juros sobre a carteira de crédito. Com um TPV de R$ 560,9 bilhões em 2025 e 4,7 milhões de clientes ativos, a empresa sustenta um take rate de 2,58% no segmento MPME. As operações continuadas geraram R$ 3,7 bilhões em receita e R$ 707 milhões de lucro líquido ajustado, com ROE de 26%.

O braço de banking atende 3,7 milhões de clientes ativos, que mantêm R$ 8,7 bilhões em depósitos. A Conta Stone tornou-se um produto de retenção, com 79% dos clientes de pagamentos utilizando os serviços bancários. A monetização ocorre via interchange e spreads de crédito.
A carteira de crédito, agora em R$ 2,8 bilhões, opera sob uma abordagem conservadora. A criação da Stone SCFI em 2024 permitiu a oferta de crédito com capital próprio, reduzindo a dependência de parceiros bancários. A inadimplência permanece sob controle, embora a empresa mantenha cautela na expansão da originação.
Tensões estruturais
Pix canibaliza débito, regulação aperta, margens comprimem.
O crescimento do Pix QR Code pressiona o modelo de negócio, uma vez que a receita por transação é sensivelmente menor que a do débito. A Stone compensa a canibalização com o aumento do volume total processado e o cross-sell de serviços financeiros. Contudo, o take rate de longo prazo enfrenta pressão constante.

A regulação tornou-se mais rigorosa com o aumento das exigências de capital para instituições de pagamento. A migração para a estrutura de financeira (SCFI) confere flexibilidade, mas eleva o custo de compliance e os requisitos de Basileia. A concorrência com Cielo, PagSeguro e Nubank intensifica a disputa por clientes e margens.
O que vem nos próximos 24 meses
Crédito volta ao centro, software sai de cena.
A Stone distribuiu R$ 3 bilhões aos acionistas em 2025, sinalizando uma transição para a priorização da rentabilidade. A estratégia pós-Linx foca exclusivamente no mercado MPME, com o desinvestimento de ativos de software como a SimplesVet. A meta é consolidar a posição de banco completo para pequenas empresas.
Sinais a observar:
- Take rate trimestral: quedas abaixo de 2,5% indicam pressão do Pix.
- Crescimento da carteira de crédito: aceleração acima de 30% sinaliza apetite a risco.
- Índice de Basileia: valores abaixo de 12% exigem recapitalização.
- Churn de clientes MPME: taxas acima de 5% indicam perda de competitividade.
- Novas aquisições: qualquer M&A relevante reacende o debate sobre alocação de capital.

A Stone encerra 2026 mais enxuta e rentável, porém sob pressão competitiva. A experiência com a Linx forçou um retorno ao core business de pagamentos e serviços financeiros. O sucesso de Mateus Scherer à frente da companhia dependerá de sua capacidade de expandir a oferta de crédito sem comprometer a estabilidade do balanço em um cenário de margens comprimidas pelo Pix.
Source · BrazilValley





