O cenário macroeconômico global, marcado por incertezas geopolíticas e pressões inflacionárias, esconde um desafio estrutural mais profundo: o elevado endividamento dos Estados. Segundo Luis Stuhlberger, CEO da Verde Asset e gestor do Fundo Verde, a questão fiscal superou a inflação e os conflitos armados como a principal ameaça à estabilidade dos mercados. Em participação recente, o gestor enfatizou que a tendência de gastos públicos expansionistas tem sustentado prêmios de risco elevados nas curvas de juros longas, um fenômeno que dificulta a convergência da política monetária e limita o espaço para crescimento sustentável em diversas economias.
Para o mercado brasileiro, a leitura de Stuhlberger é de preocupação acentuada. O gestor argumenta que o país enfrenta um quadro fiscal que exige atenção imediata, onde a rigidez das despesas correntes pressiona a necessidade de aumentos constantes na carga tributária. A tese central é que a trajetória da dívida pública brasileira, se não contida, continuará a exigir prêmios de risco que elevam o custo do capital, penalizando o investimento produtivo e perpetuando patamares de juros nominais elevados.
A armadilha do endividamento global
A dinâmica fiscal observada atualmente não é um fenômeno isolado do Brasil, mas reflete uma mudança de paradigma pós-pandemia. Governos ao redor do mundo têm adotado políticas de gastos mais flexíveis, elevando o endividamento em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Stuhlberger observa que essa postura, embora tenha servido como suporte durante períodos de crise, tornou-se estrutural, dificultando a reversão dos prêmios de juros de longo prazo. A leitura aqui é que o mercado global está precificando um risco de crédito soberano que não era visível nas décadas anteriores de austeridade.
Historicamente, o controle fiscal foi a âncora que permitiu a estabilidade monetária. A quebra dessa âncora, acompanhada pela necessidade de financiar déficits crescentes, altera a precificação de todos os ativos de risco. O impacto é sentido na forma de uma inclinação mais acentuada das curvas de juros, onde o investidor exige uma compensação maior para carregar títulos de longo prazo. Essa realidade impõe um desafio para gestores de portfólio, que precisam navegar em um ambiente onde o risco soberano passou a ser um componente central da volatilidade.
O mecanismo de transmissão fiscal no Brasil
No Brasil, o mecanismo de transmissão dessa pressão fiscal é direto e contundente. Stuhlberger destaca que o governo gasta cerca de 38% do PIB sem considerar o serviço da dívida, o que, diante de uma arrecadação equivalente, resulta em um crescimento anual da dívida pública em relação ao PIB. Essa aritmética cria uma necessidade constante de receitas extras, que se traduzem em aumentos de tributos, gerando um ciclo de ineficiência que impacta o setor privado.
O gestor aponta que o modelo de governança atual é um dos principais fatores que explicam o patamar de juros extremamente elevado no país. A percepção de que a política fiscal não possui uma âncora crível força o Banco Central a manter uma postura monetária mais restritiva para compensar o desequilíbrio. Esse cenário cria uma dependência de ativos atrelados ao CDI, limitando a alocação de longo prazo e inibindo projetos de investimento que exigem horizonte de planejamento mais extenso.
Tensões e implicações para investidores
A tensão entre a necessidade de gastos públicos e a capacidade de arrecadação cria um ambiente de incerteza para os stakeholders. Reguladores enfrentam o dilema de manter o equilíbrio das contas sem sufocar a atividade econômica, enquanto competidores e empresas buscam se proteger contra a volatilidade cambial e de juros. Para o investidor, a estratégia tem sido a cautela: a alocação em ativos no exterior serve como um hedge natural, enquanto a exposição a ativos locais permanece concentrada em instrumentos de liquidez imediata.
O paralelo com o cenário internacional é inevitável. Enquanto a Ásia atua como um exportador de deflação, mantendo sob controle os preços de bens industriais, o Brasil enfrenta pressões domésticas que independem do fluxo comercial global. A descorrelação entre o ambiente externo, que apresenta salários e aluguéis controlados, e a dinâmica fiscal brasileira, que pressiona os juros, coloca o investidor local em uma posição de monitoramento constante das variáveis políticas.
O horizonte de incertezas
O que permanece incerto é a capacidade do sistema político de realizar as reformas necessárias para alterar essa trajetória. A expectativa de Stuhlberger sobre o futuro da política fiscal brasileira reside na capacidade do governo em reverter o expansionismo e estabelecer um caminho de sustentabilidade para o endividamento. Qualquer desvio dessa trajetória pode agravar a percepção de risco e elevar ainda mais o custo de financiamento do Estado.
Observar a evolução da dívida em relação ao PIB e as decisões orçamentárias dos próximos anos será fundamental. O mercado continuará a testar a credibilidade das metas fiscais, e a resposta do governo a esses testes determinará a direção dos juros longos. A questão que fica para os próximos períodos é se o Brasil conseguirá descolar sua trajetória fiscal da tendência de endividamento observada em outras economias, ou se o custo desse ajuste será arcado pelo setor privado.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





