A arquitetura mexicana contemporânea ganha uma nova interpretação com o livro "Mesoamerican Modern", da curadora Su Wu. A publicação, com fotografias de Luis Garvan, propõe uma redefinição do entendimento sobre os espaços residenciais mais instigantes da região, argumentando que eles são, na verdade, a continuação de tradições antigas que nunca deixaram de existir. Wu desafia a convenção de usar descrições geográficas genéricas para a arte e a arquitetura, como "arte asiática" ou "arte africana", e critica a implicação do termo "pré-colombiano", que sugere um fim abrupto para a história e a relevância das ideias antigas. "Implica que não houve resiliência, nem continuidade, e que as ideias não são relevantes e presentes em como as pessoas pensam sobre arquitetura e design moderno e contemporâneo, o que não é o caso", afirma Wu.
Um Legado em Concreto e Pedra
O livro foca em residências mexicanas que, segundo Wu, extraem de elementos culturais compartilhados — como a própria história, os materiais disponíveis e uma profunda apreciação pela paisagem natural — para criar um estilo distintivo. Embora o título refira-se à Mesoamérica, uma área cultural e histórica mais ampla que abrange partes da América Central, o foco da obra são as casas mexicanas. Essa vasta região, outrora lar de inúmeras tribos e impérios com diversas línguas, compartilhava semelhanças notáveis, como sistemas agrícolas desenvolvidos de forma independente, um calendário astronômico comum e cidades planejadas com eixos de poder centralizados. A paisagem mesoamericana, por sua vez, é tão variada quanto sua cultura, com costas pacíficas, praias tropicais, vales e montanhas. Séculos depois, traços culturais persistiram, infiltrando-se na abordagem contemporânea de design de espaços e interiores. Essa influência se manifesta na valorização da paisagem, em uma intencional ambiguidade na função dos espaços e no uso de materiais de origem local, sejam eles azulejos pintados à mão ou a humilde tezontle, uma rocha vulcânica avermelhada.
Diálogo com a Natureza e o Espaço
As casas selecionadas por Wu em "Mesoamerican Modern" dialogam com seus arredores de maneiras distintas. Um exemplo é a Casa Bernal, em San Sebastián Bernal, Querétaro. Marcos Ruiz, cofundador da Feria Material, optou por adicionar uma extensão a uma estrutura histórica, mantendo a fachada do século XVI com símbolos mesoamericanos esculpidos em pedra. O interior, predominantemente de concreto, apresenta formas monumentais inspiradas na arquitetura antiga, como uma pirâmide invertida que conduz a um espaço de fogueira. A obra de Ruiz prioriza a vista para a imponente Peña de Bernal, um dos maiores monólitos do mundo. Quando uma parede recém-construída bloqueou a visão, Ruiz interveio, cortando o topo da estrutura e angulando a janela para permitir a contemplação completa da montanha a partir de um assento.
Flexibilidade Funcional e Espaço Aberto
Em contraste com a abordagem eurocêntrica que frequentemente define a função de cada cômodo e seus móveis correspondentes — um "living room" com sofá, um "dining room" com mesa de jantar —, os arquitetos apresentados no livro de Wu demonstram uma flexibilidade notável. Wu relata surpresa ao ouvir arquitetos discutirem a ideia de que "você não precisa preencher cada cômodo com móveis", e que a finalidade de um espaço pode ser fluida. "Eles falavam sobre ter um espaço que não estava vazio, mas que estava aberto à possibilidade", descreve a curadora. A Casa 720, projetada por Fernanda Canales em Valle de Bravo, é um exemplo emblemático. Esta residência circular, localizada em um popular refúgio de fim de semana, ecoa a forma do calendário asteca. O conceito, embora inspirado na história, deixa um espaço central deliberadamente vazio — um pátio —, permitindo múltiplos usos e interpretações, refletindo uma filosofia de design que valoriza a abertura e a adaptabilidade, em vez de definições rígidas de espaço.
Implicações e a Continuidade do Design
A abordagem de "Mesoamerican Modern" sugere uma visão mais profunda da arquitetura como um reflexo contínuo de identidades culturais e históricas. Ao conectar o design contemporâneo a raízes pré-colombianas, Wu oferece um contraponto à narrativa de ruptura e novidade constante que muitas vezes domina o discurso sobre arquitetura moderna. A ênfase em materiais locais e na integração com a paisagem também aponta para uma sustentabilidade inerente e um respeito pelo ambiente que podem servir de modelo. Para o Brasil, um país com uma rica tapeçaria de influências indígenas, africanas e europeias, a reflexão sobre como as tradições locais podem informar e enriquecer a arquitetura contemporânea é particularmente pertinente. A possibilidade de revisitar e recontextualizar elementos históricos, integrando-os de forma orgânica em projetos modernos, abre caminhos para uma arquitetura mais autêntica e conectada com sua identidade.
A leitura aqui é que o livro de Su Wu não apenas documenta um estilo arquitetônico, mas propõe uma nova lente interpretativa para a produção espacial na América Latina. Ao resgatar a ideia de continuidade histórica e cultural, "Mesoamerican Modern" convida a olhar para além das influências externas e a reconhecer a força e a resiliência das tradições locais na formação da identidade arquitetônica contemporânea. A obra nos desafia a questionar o que significa ser "moderno" e como o passado, longe de ser um obstáculo, pode ser um alicerce para o futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company




