Sob o sol implacável de Machu Picchu, o vento sussurra histórias de impérios esquecidos e de um futuro incerto. Em meio à grandiosidade das ruínas incas, um fantasma paira, mais ameaçador que as intempéries climáticas ou a escassez de especialistas: a falta de verbas públicas. Um estudo recente do World Monuments Fund (WMF) lança um alerta sombrio: o subfinanciamento público emergiu como a principal ameaça à preservação de patrimônios históricos em todo o mundo, superando até mesmo os impactos acelerados das mudanças climáticas e as lacunas de conhecimento técnico.
Este achado, divulgado como parte do processo de indicação para a lista World Monuments Watch 2027, revela uma tendência alarmante. Dos 372 sítios indicados, 65% citaram a escassez de financiamento e o desenvolvimento econômico como desafios primordiais, um aumento significativo em relação aos 55% registrados em 2024. A presidente e CEO do WMF, Bénédicte de Montlaur, ressalta que as pressões sobre o patrimônio estão se intensificando, com recursos, capacidade e expertise lutando para acompanhar o ritmo. Segundo o Relatório Global da UNESCO sobre Políticas Culturais, apenas um em cada quatro países possui os meios para salvaguardar seu patrimônio, forçando comunidades a fazerem mais com menos, enquanto habilidades cruciais para a conservação se perdem.
A análise do WMF sugere que a cultura e o patrimônio são frequentemente as primeiras vítimas de cortes orçamentários governamentais. Em um cenário global marcado por conflitos e pela escalada das mudanças climáticas, governos, especialmente na Europa e nos Estados Unidos — outrora fortes apoiadores da preservação —, têm reduzido ou interrompido o financiamento público. Essa retração deixa um vácuo que nem sempre é preenchido por iniciativas privadas ou por parcerias com fundações e corporações. A busca por modelos de financiamento mais robustos passa pela colaboração entre setores público e privado, e pela demonstração de como o patrimônio se entrelaça com o desenvolvimento econômico, a gestão turística e outras questões sociais vitais.
Embora cortes em patrimônio possam gerar economias de curto prazo, o estudo argumenta que tais medidas criam perdas socioeconômicas maiores a longo prazo. Mais de 60% dos indicados identificaram oportunidades para que sítios históricos impulsionem economias locais por meio do turismo sustentável, revitalização urbana e criação de empregos. A falta de expertise técnica, apontada por cerca de 35% dos indicados, e eventos climáticos extremos, como inundações e secas (afetando cerca de 30%), emergem como os segundos e terceiros maiores desafios, respectivamente. Em regiões como a África Subsaariana, os eventos climáticos extremos são particularmente severos, enquanto conflitos e a construção da paz se tornam preocupações centrais no Oriente Médio e na África.
A preservação do patrimônio transcende a mera restauração de monumentos; trata-se de salvaguardar histórias e marcos que conectam gerações. E embora existam mecanismos de apoio internacional, como os da UNESCO, a escala dos desafios identificados pelo WMF é avassaladora. O severo subfinanciamento e os crescentes perigos climáticos representam riscos sérios não apenas para o nosso legado global, mas também para as comunidades que o guardam. A proteção desses locais, que carregam a memória, a resiliência e a identidade de seus povos, exige mais do que conservação; demanda advocacia, expertise técnica e parcerias estratégicas para sustentar seu significado para o futuro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





