A Suécia lançou uma campanha nacional que, de forma contraintuitiva, incentiva os cidadãos a serem menos polidos e mais diretos ao lidar com contatos suspeitos. A iniciativa, que conta com a participação de celebridades suecas, visa reduzir o número de golpes cibernéticos, um crime que tem gerado lucros expressivos para os criminosos no país.

Segundo a autoridade policial sueca (Polisen), os cibercriminosos faturaram 5,7 bilhões de coroas suecas (aproximadamente US$ 580 milhões) em 2025. Os golpes têm se mostrado particularmente eficazes contra a população idosa, explorando a tendência a serem mais educados e confiantes. A campanha, que se estenderá até 11 de outubro em diversas mídias, tem como lema "Ouse ser rude – pode te salvar de um golpe".

A Lógica da Grosseria como Autodefesa

A atriz Suzanne Reuter, uma das figuras públicas envolvidas, explicou sua participação como um dever cívico. "É um crime terrível que afeta tantas pessoas. Se eu puder usar minha voz para ajudar alguém a não ser enganado, quero fazê-lo", declarou. Ela ressalta que muitos, especialmente de sua geração, foram criados para serem sempre educados e prestativos. Contudo, o cenário atual exige uma postura diferente: "Hoje você tem que ousar ser um pouco mais questionador. Não é grosseria – é autoproteção."

Robert Öhman, líder de operações nacionais da Polisen, detalha que os fraudadores são mestres em engenharia social, habilidosos em construir confiança e, ao mesmo tempo, gerar um senso de estresse ou urgência. O objetivo da campanha é fazer com que as pessoas se sintam mais confortáveis em simplesmente desligar o telefone se suspeitarem de algo.

Mecanismos e Alvos dos Golpes

Os golpes por telefone são, de longe, os mais comuns. Geralmente direcionados a maiores de 60 anos, os criminosos enviam mensagens SMS disfarçadas, sempre se passando por uma autoridade confiável, como o governo ou um banco. As vítimas são induzidas a ligar para um número fornecido, onde são atendidas por golpistas que seguem um roteiro preestabelecido. Semelhante aos Países Baixos, a Suécia também enfrenta o problema de falsos policiais que se apresentam em domicílios para coletar e "armazenar com segurança" objetos de valor, apenas para roubá-los.

Implicações e Cooperação Policial

Autoridades e organizadores da campanha alertam que, nesses casos, é crucial que o público rompa com as normas sociais aprendidas e feche a porta "ao menor sinal de hesitação". A polícia e outras organizações ou empresas legítimas jamais irão a uma residência para coletar ouro, cartões de crédito ou outros bens de valor. A preocupação das autoridades não se limita às perdas pessoais das vítimas; o dinheiro roubado pode financiar outras atividades criminosas graves, incluindo a cooperação entre fraudadores e redes de crime violento.

Perguntas em Aberto e o Caminho a Seguir

A polícia sueca e a Agência de Correios e Telecomunicações (PTS) intensificaram a colaboração para combater fraudes telefônicas desde junho. Em agosto, entraram em vigor novas regras que obrigam os provedores de serviços a bloquear comunicações suspeitas de fraude antes que cheguem ao destinatário. O país busca, assim, não apenas reduzir o risco de engano, mas também combater os criminosos por trás dessas ações. A eficácia a longo prazo dessa abordagem, que normaliza a desconfiança, ainda será observada, mas o cenário atual exige medidas drásticas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Register