O estúdio de arquitetura Supervoid apresentou recentemente o pavilhão da exposição 'Uno, Cinque, Dodici. Ottant’anni del Premio Strega', uma estrutura concebida para documentar as oito décadas do mais prestigiado prêmio literário da Itália. Instalada como uma peça central, a obra organiza mais de mil volumes que compõem uma 'biblioteca ideal', abrangendo desde a primeira edição do prêmio, em 1947, até os dias atuais. A organização cronológica permite que o visitante percorra não apenas a cronologia dos vencedores, mas as transformações nas narrativas midiáticas e as controvérsias que moldaram o cenário cultural italiano ao longo de setenta e nove edições.
O projeto se destaca pela abordagem de 'sala dentro de uma sala', atuando como um dispositivo autônomo de exposição. Enquanto o exterior apresenta uma casca de alumínio abstrata e minimalista, o interior busca evocar uma dimensão doméstica e íntima, utilizando texturas têxteis e uma paleta de cores que remetem aos ambientes históricos associados à fundação do prêmio e à comunidade literária que o sustentou. A proposta editorial do Supervoid é criar um diálogo entre a frieza do material industrial e a carga afetiva dos objetos arquivísticos.
A materialidade do arquivo
A essência do pavilhão reside na articulação entre sua forma externa e o conteúdo interno. A superfície de alumínio, longe de ser estática, é pontuada por janelas que se abrem para o interior, revelando sequências de livros e capas dos vencedores. Esse ritmo arquitetônico, inspirado em princípios clássicos, confere uma vibração visual à estrutura, permitindo que a diversidade gráfica das capas dos livros interrompa a ordem do design industrial. A escolha do alumínio como material principal sublinha a intenção de criar um suporte contemporâneo para um arquivo histórico, distanciando-se de exposições museológicas convencionais.
Mecanismos de interação
O elemento central da experiência do visitante é a interatividade física. O pavilhão não é apenas um receptáculo para livros, mas um dispositivo que responde ao público. Ao abrir as janelas integradas às fachadas, o visitante altera a configuração espacial da obra, transformando a percepção do volume conforme a interação ocorre. Esse mecanismo transforma a arquitetura em um sistema vivo, onde a visibilidade do acervo é mediada pelo gesto do espectador, reforçando a ideia de que a história literária é um campo em constante reconfiguração através do olhar público.
Implicações para o design expositivo
O trabalho do Supervoid levanta questões sobre como o design de exposições pode integrar a função de arquivo com a experiência espacial. Ao equilibrar o ambiente privado e institucional, o projeto sugere que a arquitetura expositiva contemporânea deve ser capaz de atuar como uma interface ativa. Para competidores e curadores, a estrutura serve como um precedente de como materiais industriais podem ser humanizados por meio de intervenções sensoriais e interativas, sem perder a clareza conceitual exigida por grandes acervos.
Perspectivas de uso
O sucesso dessa instalação levanta o debate sobre a longevidade de dispositivos arquitetônicos temporários em espaços de museus. A capacidade do pavilhão em se adaptar a diferentes ambientes, mantendo sua integridade conceitual, abre caminho para que outras instituições considerem estruturas modulares como alternativas a exposições fixas. O que permanece em aberto é como esse modelo de interatividade física pode ser escalado para acervos ainda maiores sem comprometer a estabilidade dos materiais expostos.
O pavilhão de alumínio do Supervoid demonstra como a arquitetura pode ser um mediador eficaz entre o passado literário e a estética contemporânea, convidando o público a participar ativamente da construção da memória cultural.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





