A sustentabilidade nas grandes corporações deixou de ser um exercício de metas públicas para se tornar um pilar estratégico de relacionamento com o cliente. Segundo Nancy Powell, líder de sustentabilidade da HP para as regiões do Reino Unido, Irlanda e EMEA, a transição atual exige que o impacto ambiental seja integrado desde a manufatura até a disposição final do hardware. O movimento reflete uma mudança de paradigma: a sustentabilidade não é mais um programa paralelo, mas um componente central da proposta de valor oferecida aos compradores.
A estratégia da HP para 2026 ilustra como empresas de tecnologia estão sendo pressionadas a resolver problemas práticos de seus parceiros. Como muitos clientes possuem metas próprias de descarbonização, eles buscam fornecedores que ajudem a reduzir o impacto direto em suas operações. A oferta de produtos mais eficientes e embalagens com menor volume de resíduos tornou-se, portanto, uma ferramenta de competitividade comercial essencial para manter a relevância no mercado.
O novo imperativo da sustentabilidade
Historicamente, a pauta ambiental dentro de empresas como a HP era focada na explicação de conceitos e na definição de marcos temporais para redução de emissões. Hoje, a realidade é distinta. A sustentabilidade está presente em contratos de aquisição e exigências regulatórias, o que torna a execução muito mais rigorosa. A complexidade do tema cresceu, exigindo que as equipes de liderança equilibrem a ambição corporativa com a viabilidade operacional e as demandas crescentes de transparência dos mercados europeus.
Para a liderança, o desafio reside em manter a equipe motivada diante de demandas que se tornam mais técnicas e abrangentes. O cenário atual exige que a sustentabilidade seja tratada como um dado operacional, integrado ao dia a dia da gestão de produtos. A mudança de tom é clara: se há 25 anos o foco era a conscientização, agora o foco é a conformidade e a entrega de métricas que sustentem as promessas ambientais feitas ao mercado.
O desafio da padronização de dados
A falta de convergência metodológica no setor de tecnologia é o principal entrave para o avanço da sustentabilidade. A dificuldade em padronizar a medição da pegada de carbono entre diferentes fabricantes cria atritos na cadeia de suprimentos e frustrações entre parceiros comerciais. Sem uma linguagem comum sobre como medir o impacto, a colaboração entre empresas do mesmo ecossistema torna-se ineficiente e sujeita a interpretações divergentes.
Além disso, as decisões estratégicas envolvem constantes concessões. Por exemplo, priorizar a redução da pegada de carbono de um dispositivo pode, em certos casos, limitar a incorporação de novos materiais reciclados em sua fabricação. Esse dilema ilustra a necessidade de escolhas difíceis, onde a otimização de uma variável pode comprometer o desempenho de outra, forçando as lideranças a priorizar o que gera mais valor real para o cliente final.
Impacto na relação com o cliente
A visão da HP para o futuro próximo é ser puramente centrada no cliente, utilizando o engajamento direto como principal termômetro de sucesso. A métrica de sucesso de uma liderança de sustentabilidade, segundo Powell, reside na frequência de encontros com parceiros e clientes, visando entender como a tecnologia pode resolver suas dores ambientais. A sustentabilidade, sob essa ótica, é uma ferramenta de redução de atrito, simplificando processos que antes eram vistos como desperdício ou custo excessivo.
O mercado brasileiro, que também enfrenta pressões por relatórios ESG mais robustos, observa com atenção movimentos de grandes players globais. A capacidade de traduzir complexidade técnica em valor tangível para o cliente é o grande diferencial competitivo. A sustentabilidade, portanto, deixa de ser um custo para ser uma forma de otimizar a eficiência operacional de toda a cadeia de valor.
O futuro da gestão ambiental
Permanece em aberto como o setor conseguirá resolver a lacuna de dados e a falta de padronização global. A expectativa é que, com o aumento das exigências regulatórias, a colaboração entre concorrentes se torne uma necessidade, e não apenas uma escolha estratégica. O que observar nos próximos meses é a capacidade dessas empresas em transformar promessas em métricas auditáveis e aceitas universalmente.
O sucesso a longo prazo dependerá da habilidade de integrar essas métricas sem perder o foco na inovação dos produtos. A sustentabilidade continuará a ser, em última análise, uma série de escolhas estratégicas onde o trade-off é a regra, exigindo uma gestão atenta às oscilações do mercado e à maturidade dos clientes.
O cenário para 2026 sugere que a sustentabilidade será cada vez mais integrada ao ciclo de vida do produto. A transição de um discurso institucional para uma entrega de valor prático redefine o papel das lideranças de tecnologia, que agora precisam atuar na interseção entre a engenharia de hardware e as exigências de ESG dos clientes. A jornada está apenas começando, mas a direção parece clara para os grandes players.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





