O zumbido baixo de um projetor de 35mm, o leve tremor da imagem na tela, a poeira que dança no feixe de luz. Há uma fisicalidade inegável na projeção de um filme em película, uma qualidade tátil que a arte digital, com sua perfeição polida e fluxo incessante, parece ter perdido. É nesse território de materialidade que a artista britânica Tacita Dean tem construído sua obra, e sua instalação monumental "FILM", de 2011, é um testemunho poderoso dessa busca. Exibida agora nos Estados Unidos, no espaço cavernoso da Marciano Art Foundation em Los Angeles, a obra convida o espectador a uma imersão em um cinema que é, ao mesmo tempo, sujeito e meio.
Dean argumenta que a transição do filme para o digital não foi apenas uma mudança de tecnologia, mas uma alteração fundamental no próprio meio artístico. "Não se trata apenas de emulsão versus pixels", escreveu ela em um artigo para o The Guardian, "ou luz versus eletrônica, mas algo mais profundo — algo a ver com poesia." "FILM" materializa essa poesia. Projetada em uma coluna de 31 pés de altura, a imagem vertical, obtida com uma lente anamórfica girada 90 graus, transforma a tela em uma gigantesca tira de filme, completa com os furos de roda dentada que avançam o celuloide. As imagens, que incluem tomates maduros e janelas de catedrais, ganham uma presença quase escultórica, carregadas de granulação, manchas de poeira e lampejos de superexposição que, longe de serem falhas, acentuam sua vitalidade e sensibilidade.
A obra de Dean surge em um momento em que o universo visual é dominado por um fluxo contínuo de imagens digitais, muitas delas geradas por inteligência artificial. A ironia, como a própria artista sugere, é que a analogia entre a rolagem infinita de um feed de mídia social e a de um rolo de filme fotográfico termina na forma. Enquanto a primeira é frequentemente homogênea, filtrada e cada vez mais sintética, a segunda pulsa com uma qualidade orgânica, uma imperfeição que a torna intrinsecamente humana e, para Dean, poeticamente rica. A experiência de assistir a "FILM" é, portanto, um convite a desacelerar, a contemplar a textura, a luz e o próprio processo de criação, redescobrindo a beleza nas limitações e nas qualidades únicas da matéria fílmica.
O que resta, então, quando as imagens se tornam cada vez mais descoladas de qualquer suporte físico, quando a IA pode replicar texturas e estilos com perfeição assustadora? A obra de Tacita Dean nos força a questionar o valor da materialidade na arte. Em um mundo saturado de efêmeros pixels, a resistência do celuloide, com suas marcas de tempo e uso, oferece um refúgio, um lembrete de que a arte, em sua essência, pode residir tanto na forma quanto na substância, na poesia que emerge não apenas do que é mostrado, mas de como é mostrado. A experiência de Dean nos convida a perguntar: que tipo de poesia podemos encontrar em um mundo cada vez mais moldado pelo artificial?
Source · Hyperallergic





