A varejista americana Target está implementando uma nova política de presença para seus funcionários de lojas e centros de distribuição, com o objetivo de reduzir drasticamente a incidência de atrasos e faltas não justificadas. A partir de setembro, a empresa passará a utilizar um sistema de pontos para contabilizar violações, onde o acúmulo de 12 pontos resultará no desligamento do colaborador, segundo informações confirmadas pela companhia.

O modelo estabelece gradações específicas para as infrações: atrasos superiores a oito minutos equivalem a um quarto de ponto, ausências sem aprovação somam um ponto, e faltas sem aviso prévio totalizam três pontos. As penalidades são progressivas, exigindo conversas com supervisores ao atingir três pontos e aconselhamento ao chegar a cinco, culminando na demissão ao atingir o limite estipulado. Os pontos expiram a cada 365 dias, mantendo o controle constante sobre a assiduidade da força de trabalho.

O contexto operacional por trás da medida

A adoção dessa política ocorre em um momento de reestruturação focada em eficiência sob a gestão de lideranças operacionais como Michael Fiddelke, atual COO (Chief Operating Officer) da Target. A empresa enfrenta desafios significativos de desempenho, tendo registrado queda nas vendas comparáveis por trimestres consecutivos em seu histórico recente. A estratégia executiva parece focada em reverter esse cenário através da melhoria da eficiência nas operações e da experiência do cliente nas lojas físicas.

Historicamente, a Target tem enfrentado críticas de consumidores relacionadas aos preços elevados, problemas de estoque e falta de pessoal nas unidades, o que impacta diretamente a percepção da marca. Com mais de 400 mil funcionários, a empresa busca agora equilibrar a necessidade de crescimento com uma disciplina de trabalho mais rígida, alinhando-se a práticas já adotadas por gigantes do varejo como Walmart e Amazon, que também utilizam sistemas de pontuação para gerir suas equipes.

A vigilância como norma no pós-pandemia

O movimento da Target é um reflexo de uma tendência mais ampla de endurecimento das políticas de presença por parte dos empregadores. Desde o arrefecimento da pandemia, empresas têm buscado formas de reverter a flexibilidade do trabalho remoto e controlar a assiduidade presencial. Ferramentas de vigilância, como o monitoramento de crachás, uso de VPNs e rastreamento de localização, tornaram-se comuns em diversos setores.

Empresas como Dell e Roblox, por exemplo, implementaram sistemas de sinalização para identificar funcionários que não cumprem as exigências de retorno ao escritório. A leitura aqui é que o controle sobre o tempo e a localização do trabalhador deixou de ser uma política de gestão pontual para se tornar uma métrica central de conformidade corporativa, evidenciando uma tensão crescente entre a demanda por produtividade física e a autonomia dos colaboradores.

Implicações para o ecossistema de varejo

A rigidez nas políticas de presença pode gerar consequências variadas para os diferentes stakeholders do mercado. Para os funcionários, o aumento do monitoramento pode elevar os níveis de estresse e afetar a retenção de talentos em um setor historicamente marcado pela alta rotatividade. Para os reguladores e sindicatos, o uso de algoritmos para decidir demissões levanta questões sobre a transparência e a justiça das métricas de desempenho.

Vale notar que essa tendência não se limita aos Estados Unidos. Governos em outras regiões, como a Alemanha, têm discutido reformas que visam desestimular o absenteísmo, sugerindo que a pressão por presença física é um desafio global. No Brasil, onde o varejo físico possui uma dinâmica intensiva de mão de obra, a importação dessas práticas de monitoramento automatizado pode encontrar resistência cultural e jurídica, dado o rigor da legislação trabalhista local.

O futuro da gestão de assiduidade

Permanece incerto se o sistema de pontos da Target será suficiente para reverter a tendência de queda nas vendas ou se a medida poderá alienar a força de trabalho. O equilíbrio entre a exigência de disciplina e a manutenção de um ambiente que promova o engajamento continua sendo o grande desafio para a liderança da varejista.

O mercado observará atentamente se outras redes seguirão o mesmo caminho ou se a rigidez excessiva resultará em custos operacionais inesperados. A eficácia dessa política de controle dependerá, em última instância, de como a empresa conseguirá comunicar a necessidade dessas métricas sem descaracterizar a cultura interna em um momento de transformação estratégica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune