A proposta do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) de aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros marca um novo capítulo na tensão comercial entre os dois países. Com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, a medida, se implementada, elevaria a tarifa efetiva média sobre as exportações nacionais de 12,2% para 18,5%, segundo análise da XP Investimentos.
Apesar do tom protecionista, a avaliação da XP é que o impacto macroeconômico para o Brasil deve ser limitado. A consulta pública sobre a proposta segue aberta até 1º de julho, com uma decisão final esperada pelo governo americano para meados de julho, mantendo o setor exportador em um estado de vigilância estratégica durante as próximas semanas.
O desenho das exclusões tarifárias
A estrutura da proposta revela um esforço para proteger setores essenciais da economia americana, o que, por consequência, blinda grande parte da pauta exportadora brasileira. Dados da XP indicam que, dos US$ 37,7 bilhões exportados pelo Brasil aos Estados Unidos em 2025, aproximadamente 75% do valor total — cerca de US$ 28,3 bilhões — não seriam alcançados pela nova taxação.
Produtos de peso na balança comercial, como petróleo bruto, minério de ferro, celulose, café e carne bovina, permanecem fora da lista de sobretaxas. A leitura é que a manutenção dessas isenções reflete a dependência americana por insumos brasileiros que possuem pouca substituição doméstica imediata, evitando que a medida tarifária se transforme em um choque inflacionário para a própria economia dos Estados Unidos.
Vulnerabilidade concentrada em nichos
O risco real da medida está concentrado em segmentos específicos que possuem alta exposição ao mercado americano e menor margem para redirecionamento de vendas. A XP aponta que a tarifa de 25% recairia sobre cerca de US$ 9,4 bilhões em exportações, afetando principalmente bens manufaturados e equipamentos de maior valor agregado.
Entre os setores mais expostos estão máquinas pesadas para construção e produtos de madeira processada, como portas e perfis. Diferente das commodities, que possuem mercados globais líquidos e diversificados, esses segmentos dependem da demanda específica do mercado imobiliário e de infraestrutura americano, tornando a absorção do custo tarifário um desafio competitivo imediato para as empresas brasileiras do setor.
Dinâmicas de redirecionamento comercial
A trajetória das relações comerciais ao longo de 2025 mostra que o Brasil já vem se adaptando a um ambiente de maior fricção. A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 10,8%, um movimento que a XP associa aos choques tarifários anteriores enfrentados por aço e alumínio. O Brasil tem buscado compensar essa perda de mercado com o redirecionamento de volumes para a China e outros parceiros asiáticos.
Essa tendência de diversificação geográfica atua como um mecanismo de defesa estrutural, reduzindo a dependência de um único destino. Contudo, a eficácia desse redirecionamento depende da capacidade das empresas brasileiras em manter competitividade de preços e logística em mercados onde a concorrência é acirrada.
Incertezas no horizonte comercial
O que permanece incerto é a duração e a amplitude final dessa política de restrições. A sucessão de elevações tarifárias em setores como autopeças e cobre sugere que o comércio bilateral está sendo utilizado como uma ferramenta de pressão política, cujos desdobramentos nem sempre seguem a lógica estrita de mercado ou de eficiência econômica.
Investidores e exportadores devem monitorar se a consulta pública resultará em novas exclusões ou se o governo americano endurecerá as condições para o restante da pauta. A capacidade de resposta do setor privado brasileiro diante desses novos entraves será o principal termômetro para medir a resiliência das exportações no segundo semestre.
A economia brasileira demonstra uma resiliência notável ao conseguir manter recordes de exportação mesmo em um cenário de barreiras crescentes. Resta saber se essa flexibilidade comercial será suficiente para absorver novos custos sem corroer as margens de lucro dos setores mais expostos à política protecionista americana.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times — Mercados





