O sítio arqueológico de Barranc de la Boella, em La Canonja, próximo a Tarragona, na Espanha, tem se consolidado como um laboratório a céu aberto para a compreensão da pré-história humana na Europa. Escavações sistemáticas, conduzidas pelo IPHES-CERCA desde 2007, revelaram artefatos e vestígios de fauna com aproximadamente um milhão de anos. A importância deste local reside não apenas em sua antiguidade, mas também na hipótese de ser o berço europeu da tecnologia Acheulense, caracterizada pelo desenvolvimento de machados de mão, uma técnica mais elaborada do que as ferramentas anteriores. A vigésima campanha de escavação, concluída em setembro de 2024, trouxe à tona cerca de 300 novas peças, incluindo indícios de ossos de rinoceronte e um possível dente de hipopótamo, que se somam a achados anteriores como restos de mamute e urso. Esses descobertas pintam um quadro fascinante de um passado remoto.

Um 'Supermercado' para Homininos

A análise dos achados sugere que Barranc de la Boella não era um local de residência permanente para os hominínios, mas sim um ponto estratégico de recursos, comparável a um "supermercado" pré-histórico. A paisagem da época, descrita como semelhante a uma savana africana, atraía herbívoros devido à presença de água. Estes, por sua vez, atraíam predadores como hienas e leões. Os hominínios, ao que tudo indica, exploravam essa cadeia alimentar, aproveitando a carne de animais que poderiam ficar presos no lodo ou serem vítimas de predadores. Essa interpretação, defendida pela diretora das escavações, Palmira Saladié, oferece uma nova perspectiva sobre o comportamento e as estratégias de sobrevivência dos nossos ancestrais, destacando sua capacidade de adaptação e exploração do ambiente.

A Tecnologia Acheulense na Europa

A presença da tecnologia Acheulense em La Boella é um dos aspectos mais significativos do sítio. A datação dos artefatos, que a colocam entre 0,96 e 0,78 milhões de anos, sugere que este pode ser um dos exemplos mais antigos dessa tecnologia na Europa. A maioria dos sítios Acheulenses europeus conhecidos tem pouco mais de 500.000 anos. A hipótese da dispersão humana a partir da África, estimada em cerca de 1,4 milhão de anos atrás, ganha força com essas descobertas. Embora não tenham sido encontrados restos humanos diretos no local, o avanço tecnológico evidenciado pelas ferramentas aponta para uma capacidade cognitiva e de fabricação sofisticada para a época, desafiando noções anteriores sobre a cronologia e a complexidade da ocupação humana no continente europeu.

Implicações para a Compreensão da Evolução Humana

As descobertas em Barranc de la Boella têm implicações profundas para a compreensão da evolução humana e a cronologia da ocupação europeia. Embora sítios como Atapuerca e Orce apresentem vestígios humanos mais antigos, La Boella se destaca pela tecnologia avançada associada a uma datação tão remota. A ausência de restos humanos diretos, no entanto, deixa em aberto a questão sobre qual espécie de hominínio foi responsável pela fabricação dessas ferramentas, abrindo caminho para futuras pesquisas e descobertas. A campanha de escavação, que terminou em setembro, agora entra na fase de consolidação e análise detalhada das peças, com resultados esperados para 2027, que podem aprofundar ainda mais nosso conhecimento sobre esse período crucial.

Um Legado para as Próximas Gerações

A comunidade de La Canonja tem abraçado a importância científica do sítio, inaugurando em junho de 2025 o Espai Mammuthus, um centro interativo que exibe restos originais de 29 espécies e ferramentas de pedra, atraindo mais de 1.500 visitantes em suas primeiras semanas. A escavação de apenas uma pequena parte do barranco sugere que ainda há muito a ser descoberto, com planos para sondar camadas ainda mais profundas. A história, como se sabe, está em constante reescrita, e Barranc de la Boella promete continuar a fornecer capítulos cruciais para o entendimento de nossas origens.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka