A Telefónica Deutschland, filial alemã da gigante espanhola de telecomunicações, está no centro de um experimento corporativo que pode definir o futuro de suas operações globais. Diante da perda de um cliente de grande porte, a 1&1, que representava até €500 milhões em receita anual, a empresa decidiu não apenas cortar custos, mas também redefinir sua estrutura com o auxílio massivo de inteligência artificial (IA). Este movimento estratégico visa otimizar processos, reduzir a força de trabalho e fechar lojas, com o objetivo de economizar €185 milhões anualmente a partir de 2028.

O Gatilho da Reestruturação

A decisão de implementar uma reestruturação profunda não foi motivada pela IA, mas sim pela perda da 1&1 como cliente atacadista. Essa ruptura já resultou em quedas significativas de receita para a filial alemã, com uma queda de 3,8% em 2025 e uma projeção de mais 9,8% no primeiro semestre de 2026. Nesse cenário, a IA surge não como a causa dos problemas, mas como uma ferramenta poderosa para mitigar seus efeitos e permitir uma resposta mais abrangente do que meros cortes de despesas.

IA como Ferramenta de Eficiência

Segundo Santiago Argelich Hesse, CEO da Telefónica na Alemanha, cerca de 150 casos de uso de IA estão sendo aplicados em diversas áreas. Isso inclui a gestão de rede, onde a IA ajusta frequências e capacidade conforme a demanda, resultando em uma redução de aproximadamente 10% no consumo elétrico das antenas. Além disso, a IA está sendo empregada na otimização do atendimento ao cliente, personalização de ofertas e na automação de processos internos, demonstrando um esforço para tornar a empresa mais enxuta e eficiente.

Cortes e Simplificação Operacional

O plano estratégico Transform & Grow 2026-2030, que abrange Espanha, Alemanha, Reino Unido e Brasil, coloca a simplificação do modelo operacional como um dos pilares. Na Alemanha, isso se traduz na eliminação de até 1.100 postos de trabalho até o final de 2026, com projeções internas indicando que até 1.650 empregos podem ser cortados até 2028. Paralelamente, cerca de 60 lojas físicas serão fechadas. Essas medidas, embora impulsionadas pela digitalização e simplificação de estruturas, são amplificadas pela capacidade da IA de automatizar tarefas e otimizar fluxos de trabalho.

Implicações para o Grupo e Espanha

O sucesso ou fracasso da estratégia na Alemanha servirá como um estudo de caso para o restante do grupo Telefónica. A empresa já reservou €265 milhões para a primeira fase do projeto e prevê investir mais €155 milhões em medidas adicionais. O objetivo global de "eficiências" é ambicioso: €2.300 milhões em 2028 e €3.000 milhões em 2030, com a IA sendo um componente central para alcançar redes autônomas e "agentes de IA" capazes de resolver tarefas em todo o negócio até 2035. Embora a Telefónica não tenha anunciado planos idênticos para a Espanha, a estratégia de menor complexidade, maior automação e eficiência operacional é um caminho provável, com o mercado espanhol, assim como o brasileiro, sendo mercados centrais para o grupo.

Perguntas em Aberto

A implementação em larga escala da IA e a consequente redução de pessoal levantam questões sobre o impacto a longo prazo na qualidade do serviço e na experiência do cliente. A capacidade de manter a inovação e a adaptação em um mercado tão dinâmico, mesmo com uma estrutura mais enxuta, será crucial. Resta observar se a Telefónica Alemanha conseguirá atingir suas metas financeiras e operacionais, e se esse modelo poderá ser replicado com sucesso em outras geografias, incluindo a própria Espanha.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka