A inteligência artificial (IA) avança em um ritmo sem precedentes, mas a Europa corre o risco de ficar para trás na corrida global. Borja Ochoa, presidente da Telefónica España e responsável por B2B da companhia, alertou que o continente está "chegando tarde" em comparação com Estados Unidos e Ásia, uma situação que ameaça a "soberania europeia" e a "autonomia tecnológica". Durante sua participação no Congresso de Directivos da APD, Ochoa destacou a necessidade urgente de maior escala e rapidez na regulamentação comunitária para que a Europa possa competir no novo cenário tecnológico.

O Alerta da Telefónica

A IA se diferencia de ondas tecnológicas anteriores por sua velocidade de penetração e por um impacto concentrado "exclusivamente na produtividade", segundo Ochoa. A Telefónica, ciente desse cenário, busca ativamente se tornar uma "referente de companhia de inteligência artificial". Para isso, a operadora implementa um programa "muito agressivo" como parte de seu plano estratégico. Essa transformação profunda se articula em duas frentes: uma redefinição completa dos processos de negócio, alavancada pela tecnologia, e o fornecimento de ferramentas de IA para seus colaboradores, adaptando a estrutura organizacional à medida que a IA se integra à empresa. Uma parcela significativa do crescimento esperado pela Telefónica advém diretamente da implementação deste novo marco.

A Brecha Tecnológica Europeia

Ochoa admitiu que os Estados Unidos e o mercado asiático possuem uma vantagem considerável sobre a Europa no desenvolvimento e adoção de IA. Para ilustrar essa disparidade, ele apontou que a Europa é responsável por "apenas 4%" das receitas globais em IA, um número drasticamente inferior às suas participações em outras áreas tecnológicas, como 23% em Internet, 19% em mobilidade e 15% em cloud. A diferença de investimento é ainda mais gritante: os EUA investem "11 vezes mais do que toda a Europa". Essa dependência excessiva de tecnologias não dominadas pode gerar "situações complexas", ressaltou o executivo, reforçando a necessidade de uma "autonomia tecnológica" robusta.

Pedidos por Escala e Agilidade

Para reduzir a distância para EUA e China, Ochoa clamou por uma regulamentação "muito alinhada à necessidade que existe a dia de hoje". Ele criticou a abordagem passada, citando como exemplo negativo a regulamentação de acesso a infraestruturas, definida há 20 anos para um contexto que já não existe. Além disso, defendeu a consolidação do mercado europeu, argumentando que "para poder investir, você precisa de escala". Em contraste com os "35 ou 40 operadores" europeus, os EUA contam com apenas três grandes players. Essa fragmentação dificulta investimentos vultosos. Ochoa também enfatizou a urgência de "mudar o ritmo na tomada de decisões" para acompanhar inovações que surgem "semana a semana", algo que a estrutura regulatória e corporativa europeia atual parece incapaz de fazer.

Perguntas em Aberto

A declaração da Telefónica levanta questões cruciais sobre o futuro da Europa no cenário tecnológico global. Será que a União Europeia conseguirá implementar as reformas regulatórias e de mercado necessárias a tempo de reverter a tendência de atraso na IA? A iniciativa da Telefónica em reorganizar seus processos e capacitar seus funcionários é um modelo que outras empresas europeias seguirão? A busca por autonomia tecnológica pode levar a um protecionismo que, paradoxalmente, prejudique a inovação e a colaboração internacional? A resposta a essas perguntas definirá a capacidade do continente de manter sua relevância e competitividade em uma era cada vez mais dominada pela inteligência artificial.

A corrida pela inteligência artificial está em pleno vapor, e a Europa, segundo a Telefónica, precisa urgentemente acelerar seus passos. A capacidade de adaptação regulatória e a busca por escala serão determinantes para o futuro tecnológico e a soberania do continente. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España