Um novo relatório da firma de inteligência de ambiente espacial Mission Space quantifica o custo crescente de um risco tão antigo quanto o próprio sistema solar: as tempestades de partículas emitidas pelo Sol. Segundo a análise, as perdas econômicas anuais causadas por estes eventos devem saltar de US$ 20,65 bilhões em 2026 para US$ 44,27 bilhões até 2035.

O ponto central do estudo, no entanto, é contraintuitivo. O aumento dramático do prejuízo não virá de um Sol mais furioso, mas de uma humanidade mais exposta. A proliferação de satélites, data centers orbitais e outras infraestruturas espaciais significa que há simplesmente mais ativos vulneráveis no caminho da radiação solar. O que antes era um risco para poucos se torna uma vulnerabilidade econômica em escala.

Mais ativos, maior o risco

A análise da Mission Space detalha uma mudança no perfil de risco. Embora as redes elétricas em solo continuem sendo a categoria com maior perda projetada em valores absolutos — passando de US$ 12,88 bilhões para US$ 18,03 bilhões em 2035 —, o crescimento mais acentuado está no espaço. A categoria de "infraestrutura e conectividade espacial" verá suas perdas quadruplicarem, de US$ 2,21 bilhões para US$ 8,83 bilhões, tornando-se a segunda mais impactada.

O segmento de computação orbital é o que apresenta o crescimento mais explosivo: um salto de 25 vezes, de US$ 130 milhões para US$ 3,26 bilhões em perdas anuais. A resiliência desses futuros data centers em órbita baixa (LEO) depende de redundância. Contudo, um único evento severo de partículas poderia atingir múltiplos nós em uma mesma vizinhança orbital simultaneamente, comprometendo toda a rede de uma só vez e tornando inúteis as estratégias de backup.

Uma vulnerabilidade sistêmica

As implicações vão além dos satélites. A economia em solo que depende de sistemas de geolocalização (GNSS) — como logística, agronegócio e transportes — também verá seu risco dobrar, para US$ 6,46 bilhões. Para futuras operações na Lua, sem a proteção do campo magnético da Terra, a radiação solar se torna um fator definidor, ditando cronogramas de atividades extraveiculares e a necessidade de abrigos.

O relatório serve como um alerta para uma indústria jovem. A maioria das empresas que hoje operam constelações de satélites não existia há 11 anos, o tempo de um ciclo solar completo. Essa falta de memória institucional, combinada com a densidade de novos ativos em órbita, cria um ponto cego. O desafio não é apenas prever o clima espacial, mas compreender as falhas em cascata que ele pode desencadear em uma economia global cada vez mais dependente de sua infraestrutura orbital.

Com reportagem de Brazil Valley

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