As ações das incorporadoras Tenda, MRV&Co e Cury experimentaram uma alta expressiva na bolsa de valores nesta sexta-feira (9), um dia após a divulgação de suas prévias operacionais referentes ao terceiro trimestre de 2026 (3T26). Os papéis TEND3, MRVE3 e CURY3 registraram valorizações de 4,3%, 6% e 3,6%, respectivamente, em um dia positivo para o mercado de renda variável, com o Ibovespa avançando 1%. Os resultados apresentados pelas empresas, embora com nuances, indicam um cenário de demanda aquecida por imóveis, especialmente nos segmentos de menor renda, mas também expõem os desafios inerentes ao atual ambiente econômico e regulatório.

Desempenho e desafios da Tenda

A Tenda, focada no programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), reportou um recorde histórico de Valor Geral de Vendas (VGV) lançado para o terceiro trimestre, atingindo R$ 1,52 bilhão, um aumento de 2,3% em relação ao ano anterior. As vendas brutas cresceram 22,1% e as líquidas, 10,5%. Contudo, os distratos no segmento Tenda mais que dobraram em relação ao mesmo período de 2025, totalizando R$ 292,8 milhões. A companhia atribuiu esse aumento a fatores como a greve dos funcionários da Caixa Econômica Federal, a redução temporária do comprometimento de renda e um maior rigor nas entrevistas para concessão de crédito. O BTG Pactual, apesar de reconhecer que alguns indicadores ficaram abaixo de suas estimativas, como as vendas líquidas e a velocidade de comercialização (VSO), destacou que os lançamentos superaram as projeções. O banco também observou um aumento no preço médio dos lançamentos e uma maior concentração nas faixas 3 e 4 do MCMV, buscando mitigar a exposição a faixas de renda mais baixas. Apesar de um cenário considerado desafiador no curto prazo, o BTG reiterou a recomendação de compra para TEND3, avaliando que as ações já foram penalizadas e o valuation está atrativo.

Cury e MRV: Vendas fortes com ressalvas

A Cury apresentou resultados sólidos, com vendas líquidas de R$ 1,8 bilhão, um aumento de 10,7% na comparação anual, e lançamentos de R$ 2,12 bilhões em VGV. A VSO bruta atingiu 43,6%, com uma ligeira queda na VSO líquida. Analistas do Safra consideraram os resultados ligeiramente acima das estimativas, destacando a geração de caixa robusta de R$ 253,6 milhões, que suporta expectativas de dividendos expressivos. O banco mantém recomendação outperform para CURY3, citando um múltiplo Preço/Lucro (P/L) atrativo e um dividend yield estimado em 16% até o fim de 2027. Paralelamente, a MRV&Co registrou um salto de 29,6% nas vendas líquidas, totalizando R$ 3 bilhões, com um aumento no valor médio dos apartamentos vendidos. Os lançamentos também cresceram, impulsionados pela estratégia de desinvestimento em ativos nos Estados Unidos, que contribuiu para a redução da dívida. O Bradesco BBI classificou a prévia operacional como positiva, com vendas recordes e melhora na velocidade de comercialização. No entanto, a geração de caixa ajustada da operação de incorporação ficou praticamente estável, pressionada por fatores operacionais, como a greve da Caixa, que impactou negativamente em cerca de R$ 80 milhões. O BBI aponta que, embora a companhia esteja na direção correta operacionalmente, o desempenho mais fraco do caixa pode afetar a confiança dos investidores no curto prazo.

Perspectivas e o mercado brasileiro

O cenário para o setor de construção civil e incorporação no Brasil, especialmente no segmento de habitação de interesse social, continua a apresentar um paradoxo. Por um lado, a demanda reprimida e a necessidade de moradia sustentam um volume de vendas robusto, como demonstrado pelas prévias do 3T26. Por outro, a dependência de financiamentos via Caixa Econômica Federal e as flutuações nas políticas de crédito e taxas de juros impõem barreiras significativas. A greve dos bancários, em particular, evidenciou a fragilidade logística e operacional que pode impactar a saúde financeira das empresas, mesmo quando os indicadores comerciais são positivos. A redução da exposição a faixas de renda mais baixas, como observado na Tenda, e a venda de ativos internacionais, como no caso da MRV, são estratégias que refletem a busca por maior resiliência e alavancagem em um ambiente de incertezas.

Perguntas em aberto para o setor

O desempenho das ações nesta sexta-feira sugere que o mercado está, em grande parte, precificando os resultados operacionais positivos, mas a sustentabilidade dessa alta dependerá da capacidade das empresas em navegar pelos desafios conjunturais. A normalização dos distratos, conforme esperado pela Tenda, e a superação dos impactos operacionais da greve, como no caso da MRV, serão cruciais para a melhora da geração de caixa e, consequentemente, para a atratividade dos investimentos. Resta saber se as políticas de crédito da Caixa se manterão estáveis e se o cenário macroeconômico permitirá a continuidade do ciclo de vendas, mesmo com potenciais ajustes nas taxas de juros. A gestão eficiente desses riscos, aliada a uma estratégia clara de desalavancagem e distribuição de dividendos, definirá o caminho das incorporadoras nos próximos trimestres.

As prévias operacionais do 3º trimestre de 2026 confirmam a força da demanda no setor imobiliário brasileiro, com Tenda, MRV e Cury apresentando números expressivos de vendas e lançamentos. Contudo, os desafios relacionados ao crédito e à operação bancária exigem atenção, ponderando o otimismo com a cautela necessária para a análise de longo prazo. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times