O vento uivava, um prenúncio da altitude que aguardava. Genden Phuntsok, um ator de origem tibetana, caminhava há um dia inteiro rumo a Lukla, no Nepal, para encontrar seu co-protagonista. Enquanto Tom Hiddleston, o intérprete de Edmund Hillary, chegava de helicóptero, Phuntsok, que daria vida a Tenzing Norgay, descia a pé com um anfitrião sherpa. O encontro inicial foi marcado por uma troca de papéis simbólica: "Hey, Hillary", disse Phuntsok. "Hey, Tenzing", respondeu Hiddleston. "A partir desse momento", recordou Phuntsok, "sentimos que éramos os personagens". Essa imersão começou antes mesmo das câmeras começarem a rodar, com os dois atores percorrendo a trilha que os heróis de 1953 um dia enfrentaram, refletindo sobre as dificuldades da época. A nova cinebiografia "Tenzing", com estreia prevista para os cinemas no segundo semestre de 2026 e posterior lançamento na Apple TV+, propõe uma reescrita audaciosa da história da primeira ascensão ao Everest, relegando Edmund Hillary a um papel coadjuvante e colocando Tenzing Norgay no centro da narrativa.

A Sombra de Hillary

A história oficial da escalada ao Everest, em 29 de maio de 1953, sempre foi contada a partir da perspectiva de Edmund Hillary, o apicultor neozelandês que, ao lado do sherpa Tenzing Norgay, alcançou o cume. A glória e o reconhecimento subsequente foram desproporcionalmente direcionados a Hillary, que foi condecorado e teve sua imagem estampada em notas de cinco dólares de seu país. Tenzing, por outro lado, recebeu a George Medal e passou a vida respondendo à pergunta persistente: quem chegou primeiro? A única fotografia icônica do topo, com Tenzing empunhando seu machado de gelo, é um testemunho silencioso da ironia: Hillary, que nunca ensinou Tenzing a usar a câmera, garantiu seu lugar na história, enquanto Tenzing, o homem na foto, permaneceu como o segundo nome em qualquer menção à conquista. A nova produção de Jennifer Peedom busca resgatar a complexidade de Tenzing, focando não apenas na escalada, mas em sua trajetória de vida, suas crenças e sua luta por pertencimento antes mesmo de pisar na montanha.

O Chamado de Tenzing

"Tenzing" não é apenas um filme sobre montanhismo; é uma exploração profunda da vida do homem que se tornou um símbolo. Genden Phuntsok, nascido em uma aldeia tibetana na província de Sichuan, na China, encontrou uma conexão visceral com o papel. Sua infância, marcada pela criação de iaks e cavalos e pelo cultivo de cevada e batatas, ecoava a de Tenzing Norgay, que pastoreou os rebanhos de seu pai sob a sombra do Everest. "Esta é apenas a vida normal para nós", descreveu Phuntsok, ressaltando a proximidade com a natureza que moldou sua percepção. A semelhança física com Tenzing era tão notável que amigos enviaram a ele uma foto do casamento do alpinista, comentando a estranha coincidência. Para Phuntsok, foi um sinal do destino. Para a diretora Jennifer Peedom, que acompanhava o trabalho de Phuntsok há anos em filmes do diretor tibetano Pema Tseden, a escolha foi guiada por uma "força contida", como "Champagne prestes a explodir".

Construindo um Ícone

A produção, que avaliou cerca de 2.000 atores, focou em Genden Phuntsok após um encontro em Katmandu. A dedicação do ator foi exemplar: ele mergulhou em livros sobre Tenzing, anotando vocabulário desconhecido e relendo passagens múltiplas vezes para absorver a essência do homem que interpretaria. "Alguns livros eu li talvez quatro vezes", confessou. "Então eu realmente sabia o que ele fez." Sua abordagem ao papel transcendeu a atuação; ele praticava seus diálogos com animais e até mesmo com o colega de elenco Willem Dafoe, transformando o set em um laboratório de imersão. A decisão de Peedom de filmar em locações reais na Nova Zelândia, em vez de estúdios, e de escalar atores com experiência em montanhismo, como o renomado sherpa Phurba Tashi, que se tornou um mentor para Phuntsok, conferiu autenticidade ímpar às cenas. A proximidade com a cultura sherpa, com quem Phuntsok conviveu intensamente, permitiu que ele capturasse a complexidade emocional de Tenzing, uma nuance raramente vista em representações ocidentais de alpinistas asiáticos.

O Legado em Perspectiva

O filme não evita a questão central sobre quem pisou primeiro no cume, mas a aborda com a sabedoria de quem entende a insignificância dessa pergunta diante da magnitude da conquista. "Na mente deles, quem subiu primeiro não é importante. O mais importante é: nós chegamos ao cume. Significa que a humanidade chegou ao cume", explicou Phuntsok. Essa perspectiva, que valoriza o coletivo sobre o individual, reflete a visão de mundo de Tenzing e a profunda reverência pela natureza, contrastando com a ideia de "conquista" frequentemente associada às montanhas. A obra de Peedom permite que os sherpas demonstrem um espectro completo de emoções, algo inédito em produções cinematográficas, validando suas experiências e perspectivas. A esperança de Phuntsok é que o público reconheça o "grande família" que aguarda cada sherpa em casa, a cada expedição. O filme nos convida a olhar para além da façanha física e a contemplar a jornada humana, a identidade cultural e o profundo respeito pela natureza que Tenzing Norgay encarnou. A pergunta que permanece é se essa reinterpretação histórica será suficiente para reequilibrar a narrativa e honrar verdadeiramente o legado de um herói que, por muito tempo, permaneceu à sombra de outro.

Com reportagem de Brazil Valley

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