O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos considera uma manobra de peso para intervir no mercado de dívida soberana: usar seu caixa para financiar um programa de recompra de títulos. A informação, que partiu de uma reportagem da rede CNBC com base em fontes sênior do Tesouro, indica que o governo pode recorrer à sua Conta Geral (TGA, na sigla em inglês), que hoje acumula cerca de US$ 935 bilhões, para executar as operações.

A medida visa combater a alta persistente nos rendimentos (yields) dos títulos de longo prazo, que encarecem o custo de capital para toda a economia. A expectativa do mercado era que o Tesouro financiasse as recompras emitindo mais dívida de curto prazo. A possibilidade de usar o caixa existente, no entanto, representa uma ferramenta mais potente e direta para injetar liquidez e influenciar as taxas, sem pressionar o custo da dívida curta.

Uma mudança de tática

Recentemente, o Tesouro já havia sinalizado uma postura mais agressiva, ao anunciar que dobraria o volume de suas operações de recompra, de um teto de US$ 2 bilhões para um piso de US$ 4 bilhões por operação. Contudo, a origem dos recursos permanecia uma incógnita. Financiar a compra de títulos longos com a emissão de títulos curtos é uma manobra clássica, mas que pode gerar distorções em outros pontos da curva de juros, complicando o cenário para o Federal Reserve.

Ao optar por usar o saldo em caixa, o Tesouro evita essa complexidade. A ação funciona como uma injeção de liquidez pura no sistema, retirando títulos de longo prazo de circulação e substituindo-os por dinheiro, sem aumentar a oferta de outra classe de ativo. A reação do mercado foi imediata: após a notícia, os rendimentos dos títulos de 10 anos recuaram para 4,71%, enquanto os de 30 anos caíram para 5,24%, sinalizando que os investidores entenderam o recado.

O movimento é menos sobre política fiscal e mais sobre a "hidráulica" do mercado financeiro. Com um estoque de dívida recorde, garantir a liquidez e o bom funcionamento do mercado de Treasuries é uma prioridade estratégica. A disposição de usar o TGA mostra que o Tesouro não hesitará em usar ferramentas não convencionais para manter a estabilidade. A questão que fica é se esta é uma intervenção pontual para acalmar os mercados ou o início de uma gestão mais ativa da curva de juros por parte do governo americano.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España