Tess Jaray, pintora britânica cuja obra explorou a repetição de padrões geométricos em telas de tons suaves, faleceu aos 88 anos. A notícia foi confirmada no último domingo por meio de um comunicado oficial publicado em sua conta no Instagram, encerrando uma trajetória de décadas dedicada à investigação da forma e do espaço.
Jaray construiu uma linguagem artística própria, focada em grades, cubos e ziguezagues que contrastavam com a estética do minimalismo americano da década de 1960. Enquanto parte daquele movimento buscava a monumentalidade e o impacto imediato, a obra de Jaray optava pela contenção, convidando o espectador a uma imersão silenciosa em estruturas que, segundo ela, buscavam o equilíbrio entre o interno e o externo.
A formação de uma linguagem visual
Nascida em 1937 em Viena, Jaray teve sua infância marcada pelo exílio. Seus pais, judeus austríacos, fugiram do regime nazista um ano após seu nascimento, estabelecendo-se em Worcestershire, na Inglaterra. A perda de familiares em campos de concentração e o deslocamento forçado moldaram uma sensibilidade que encontrou na geometria uma forma de ordem e sentido.
Sua formação nas prestigiadas Saint Martin's School of Art e Slade School of Fine Art foi complementada por uma experiência transformadora na Itália em 1960. O contato com a arquitetura de Filippo Brunelleschi e a pintura de Piero della Francesca foi o catalisador que a levou a entender a pintura como a criação de um espaço onde o observador pudesse, nas palavras da artista, desaparecer.
O impacto pedagógico e intelectual
Jaray não foi apenas uma criadora de telas, mas uma educadora influente. Em 1968, tornou-se uma das primeiras mulheres a integrar o corpo docente permanente da Slade School of Fine Art em cargo de professora, deixando uma marca indelével em diversos estudantes. Sua influência atravessou fronteiras disciplinares, aproximando-a de figuras como o escritor W. G. Sebald — que admirava profundamente sua obra — e o crítico George Steiner, com quem manteve diálogos intelectuais ao longo dos anos.
A artista Rana Begum, que trabalhou como sua assistente, é um exemplo da longevidade de sua influência. A trajetória de Jaray, que incluiu comissões monumentais nas décadas de 1980 e 1990, reflete uma artista que priorizou a integridade do processo criativo sobre a busca por reconhecimento imediato, consolidando seu nome na história da arte contemporânea.
A abstração como essência
O reconhecimento público de Jaray cresceu de forma gradual, com retrospectivas importantes ocorrendo apenas nas últimas décadas, como a mostra no Secession em Viena, em 2021. Sua investigação sobre padrões e repetição não se limitava ao suporte pictórico: ao longo da vida, Jaray também escreveu sobre arte e processo criativo, deixando reflexões que complementam e aprofundam a leitura de sua obra visual.
A essência de seu trabalho, descrita pela própria artista como o que resta quando tudo o mais é removido, permanece como um convite à reflexão sobre a natureza humana. Ao simplificar a tela, Jaray não esvaziou o significado, mas abriu espaço para que o espectador preenchesse o vazio com sua própria percepção.
O legado em aberto
O falecimento de Jaray deixa em aberto a análise sobre como suas estruturas geométricas continuarão a dialogar com as novas gerações de abstracionistas. Sua capacidade de equilibrar o rigor técnico com uma busca quase espiritual pela harmonia desafia as interpretações reducionistas que frequentemente cercam a arte geométrica.
Observar sua obra hoje é reconhecer uma busca obstinada pela clareza em um mundo frequentemente caótico. A artista deixa um vasto corpo de trabalho que, embora silencioso, continua a ressoar nos espaços que ela, com tanta precisão, ajudou a construir.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · ARTnews





