O governo mexicano consolidou o controle de preços dos combustíveis como um pilar central de sua política macroeconômica para conter a inflação. Com a gasolina regular mantida próxima a 24 pesos por litro e o diesel a 27 pesos, o objetivo é blindar as cadeias logísticas e o custo de vida. Contudo, essa intervenção artificial distorce os incentivos que regem o mercado paralelo de hidrocarbonetos no país.
Segundo reportagem da Expansión MX, o comportamento das redes criminosas é altamente sensível à carga tributária e aos preços praticados. Quando o governo aplica estímulos fiscais para segurar os preços ao consumidor, o chamado "huachicol fiscal" — a importação irregular com classificação arancelária fraudulenta — perde atratividade. Em contrapartida, o roubo físico de combustível torna-se uma operação significativamente mais lucrativa para o crime organizado.
A lógica econômica do crime
A dinâmica entre o mercado formal e o ilícito no México é um jogo de vasos comunicantes. Quando o governo reduz impostos para manter os preços baixos, o incentivo para a adulteração fiscal diminui, empurrando as facções criminosas para a infraestrutura física. A ordeña de dutos, ou perfuração clandestina, oferece um produto final sem custos tributários ou logísticos, tornando-se uma alternativa viável quando o preço de mercado é artificialmente contido.
Víctor Hugo Arellano, da Onexpo Nacional, observa que o cenário atual repete padrões vistos em 2022. Naquela ocasião, a crise energética global levou a aplicação de subsídios agressivos ao IEPS, o que coincidiu com um pico de quase 11.300 tomas clandestinas. A pressão inflacionária, portanto, atua como um catalisador involuntário para a violência contra a infraestrutura energética da Pemex.
O custo operacional da repressão
O impacto financeiro é expressivo. A Pemex reportou à SEC a detecção de 22.365 tomas clandestinas entre 2024 e 2025, uma média de mais de 30 perfurações por dia. O fenômeno evoluiu para métodos sofisticados como os "huachitúneles", estruturas subterrâneas que permitem a extração contínua sem exposição na superfície, evidenciando a profissionalização das redes criminosas.
Especialistas como Rocío Robles, da Lobbying México, alertam que o controle de preços gera um risco de mercado secundário. Além do roubo direto, cresce a adulteração de qualidade e volume nas estações de serviço, onde o risco de punição por descumprir o teto de preço é visto pelos operadores como maior do que o risco de fraudar o consumidor final na bomba.
Tensões na infraestrutura energética
A persistência do problema coloca o México sob escrutínio internacional. O presidente dos EUA, Donald Trump, já classificou o huachicol como parte integrante das redes financeiras do crime organizado transnacional. A perda estimada de 35 bilhões de pesos em 2025 devido à ordeña de dutos, calculada por Francisco Barnés de Castro, reflete o tamanho do desafio que a estatal enfrenta para garantir a integridade de sua rede de transporte.
Para o ecossistema de negócios, a incerteza regulatória e a insegurança física criam um ambiente de custos elevados. A tentativa de proteger o consumidor final da volatilidade global acaba por transferir o risco para a própria estrutura da empresa estatal e para a segurança pública, criando um ciclo difícil de romper sem reformas estruturais no setor.
Perspectivas e incertezas
A questão que permanece é se o governo conseguirá equilibrar a necessidade de estabilidade social com a proteção de ativos estratégicos. A eficácia da fiscalização, até agora, tem se mostrado insuficiente para conter a criatividade das redes ilícitas em se adaptar às mudanças nas políticas de preços.
O monitoramento dos próximos trimestres será crucial para entender se novas tecnologias de detecção e repressão serão capazes de frear o roubo ou se a política de preços continuará a ditar, indiretamente, o volume de combustível subtraído da rede nacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Expansión MX





