A The Atlantic, uma das mais respeitadas publicações americanas, conseguiu uma virada notável nos últimos anos. Sob a gestão do CEO Nicholas Thompson, que assumiu em 2021, a revista saiu de um ciclo de perdas financeiras para a lucratividade, superando a marca de US$ 100 milhões em receita e alcançando 1,6 milhão de assinantes. Parte dessa estratégia de renovação incluiu uma aposta ousada: ser um dos primeiros veículos de mídia a assinar um acordo de licenciamento de conteúdo com a OpenAI.

O resultado, no entanto, é um retrato complexo do novo cenário da mídia. Em entrevista ao Business Insider, Thompson revelou que, embora o acordo tenha sido financeiramente positivo, ele falhou em uma de suas premissas centrais: gerar tráfego de volta para o site da revista. A expectativa de que os chatbots da OpenAI se tornassem uma nova porta de entrada para leitores, similar ao papel do Google, não se concretizou. A experiência da The Atlantic serve como um estudo de caso sobre os termos da nova relação de poder entre quem produz conteúdo e quem o utiliza para treinar modelos de inteligência artificial.

O dilema do link que não é clicado

A lógica por trás do acordo com a OpenAI era dupla. Primeiro, garantir uma compensação financeira pelo uso de seu vasto arquivo jornalístico. Segundo, e talvez mais importante, assegurar um "lugar à mesa" enquanto a IA redesenhava a distribuição de informação, com a expectativa de que o tráfego de referência fluiria dos chatbots para os publishers. A premissa era que a IA se tornaria o novo Google, e era crucial não ficar de fora. A realidade, porém, se mostrou diferente.

Thompson admite que a taxa de cliques (click-through rate) vinda de plataformas como o ChatGPT é "muito ruim". A razão, segundo sua análise, não é meramente um problema de design da interface, mas uma mudança fundamental no comportamento do usuário. Diferente da busca do Google, onde o objetivo é encontrar um link para sair, a interação com um chatbot é conversacional e autocontida. O usuário vai ao ChatGPT para obter uma resposta sintetizada, não para iniciar uma jornada de navegação. O link para a fonte original se torna um apêndice, não o destino principal.

Um novo equilíbrio de poder

O paradoxo se aprofunda quando se olha para o Google. Ao mesmo tempo em que o tráfego vindo da OpenAI decepciona, o tráfego de referência do próprio Google também está em declínio para muitos publishers. Contudo, Thompson aponta um dado contraintuitivo: o número de assinantes que a The Atlantic converte a partir do tráfego do Google aumentou. A hipótese é que o buscador está enviando menos visitantes, mas de maior qualidade — aqueles genuinamente interessados no conteúdo a ponto de pagar por ele.

Para o futuro, a postura da The Atlantic é pragmática. A renovação de qualquer acordo com a OpenAI dependerá de uma "troca justa de valor". Se a parceria não oferecer mais dólares, créditos de uso ou, eventualmente, o tráfego prometido, as alternativas são claras: bloquear o acesso ou processar. A era da arbitragem de tráfego, que sustentou o jornalismo digital por duas décadas, parece estar chegando a um fim. A questão para veículos como a The Atlantic não é mais se devem se aliar à IA, mas como extrair valor quando a moeda mais básica da internet — o clique — perde seu poder de compra.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Business Insider