Tim Cook, atual CEO da Apple, compartilhou recentemente o conselho inesquecível que recebeu de Steve Jobs antes de assumir a liderança da gigante de tecnologia. Em uma entrevista, Cook revelou que Jobs o instruiu a "Nunca perguntar o que eu faria, apenas faça o que é certo." Essa orientação, segundo Cook, foi um "presente" que o liberou da pressão de emular o estilo de liderança de Jobs, permitindo que ele se concentrasse em ser a "melhor versão de si mesmo" e, assim, guiasse a empresa de US$ 4,86 trilhões em uma nova era.

O conselho de Jobs surgiu de uma observação que ele fez enquanto trabalhava na Disney e na Pixar. Ele percebeu que a Disney, após a morte de Walt Disney, caiu em uma "paralisia" de discussões sobre o que o fundador faria. Jobs não queria que a Apple, que nunca havia passado por uma transição profissional de CEO, sofresse o mesmo destino. Em vez de uma sucessão baseada em imitação, Jobs buscou uma transição que permitisse a emergência de uma nova liderança autêntica.

Legado de Jobs: Foco e Colaboração

Desde que assumiu o cargo de CEO em 2011, Tim Cook tem navegado a complexa cultura da empresa, aplicando os princípios essenciais que Jobs incutiu em seu "DNA". Embora Jobs tenha encorajado Cook a seguir seu próprio caminho, ele também transmitiu fundamentos duradouros. Um dos pilares centrais é a crença de Jobs na colaboração: a ideia de que "um mais um é igual a três, não dois". A cultura de debate e troca de ideias, onde "se você compartilha uma ideia e a debate, ela se torna maior e melhor", é um legado que Cook mantém.

Essa mentalidade de colaboração e debate intenso nas reuniões da Apple, que visa gerar ideias mais robustas, remonta às origens da empresa. Cook destacou que essa abordagem permitiu o desenvolvimento de pontos fortes como acessibilidade, privacidade e educação. A cultura de "foco" de Jobs, que implicava dizer "não" a mil coisas para dizer "sim" àquela que é verdadeiramente importante, também é um princípio que Cook adota. A busca pela excelência, onde "bom não é o suficiente; tem que ser insanamente ótimo", continua a ser um motor para a empresa.

A Sucessão em Big Techs e a Lição de Jobs

O conselho de Jobs a Cook ressoa em um contexto mais amplo de sucessão em grandes empresas de tecnologia, onde a sombra do fundador muitas vezes paira sobre seus sucessores. A história mostra que empresas fortemente atreladas a seus fundadores icônicos, como a Meta de Mark Zuckerberg ou a Berkshire Hathaway de Warren Buffett, enfrentam desafios únicos na transição de liderança. A instrução de Jobs para que Cook forjasse seu próprio caminho é um exemplo de como líderes visionários podem preparar suas organizações para o futuro, garantindo que a empresa não se torne refém do passado.

A lição de "nunca pergunte o que eu faria" é particularmente relevante para CEOs de big techs que sucedem fundadores carismáticos. Ela incentiva a autonomia e a responsabilidade, permitindo que os novos líderes tragam suas próprias perspectivas e inovações sem o fardo da comparação constante. Isso pode levar a uma cultura organizacional mais resiliente e adaptável, capaz de responder às mudanças do mercado sem ficar presa a um único paradigma.

Implicações para Liderança e Inovação

As implicações desse conselho para a liderança e a inovação na Apple são profundas. Ao liberar Cook da necessidade de imitar Jobs, o fundador permitiu que o novo CEO trouxesse suas próprias fortalezas para a empresa, como sua expertise em operações e cadeia de suprimentos, que foram cruciais para a expansão global da Apple. A cultura de colaboração e o foco implacável em produtos de alta qualidade, que Jobs prezava, foram mantidos e aprimorados por Cook.

Outros líderes de negócios também se beneficiaram do aconselhamento de Jobs. Marc Benioff, CEO da Salesforce, relatou que Jobs o incentivou a expandir seu negócio dez vezes em dois anos e a construir uma economia de aplicativos, o que levou à criação da AppExchange. Howard Schultz, ex-CEO da Starbucks, recebeu de Jobs o conselho de demitir sua equipe de liderança em um momento de crise, uma decisão que, embora drástica, acabou se provando acertada. Essas histórias demonstram a capacidade de Jobs de oferecer insights estratégicos e práticos que moldaram carreiras e empresas.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Liderança na Apple

Embora o conselho de Jobs tenha sido fundamental para a liderança de Tim Cook e para a cultura da Apple, a questão que permanece é como essa filosofia de liderança continuará a evoluir. Com a ascensão de novas gerações de líderes e a constante pressão por inovação em um mercado cada vez mais competitivo, a capacidade da Apple de manter seu DNA, ao mesmo tempo em que se adapta, será crucial. A orientação de "fazer o que é certo" em vez de "o que eu faria" abre espaço para a interpretação e a evolução, mas a linha tênue entre manter a essência e abraçar a novidade sempre será um desafio.

O futuro da liderança na Apple dependerá de sua capacidade de nutrir líderes que compreendam os princípios fundamentais da empresa – colaboração, foco e excelência – e que, ao mesmo tempo, estejam dispostos a inovar e a se adaptar. A transição de liderança, que Jobs previu e planejou cuidadosamente, estabeleceu um precedente importante para outras big techs. A forma como a Apple continuará a aplicar essas lições em um mundo em rápida mudança é algo a se observar.

O legado de Steve Jobs, transmitido através de conselhos pragmáticos a Tim Cook, continua a ser um guia para a liderança na Apple. A ênfase na autenticidade, na colaboração e na busca incessante pela excelência moldou a identidade da empresa e sua capacidade de inovar, provando que o melhor caminho a seguir é, muitas vezes, o que o próprio líder constrói.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune