O documentário Time and Water, dirigido por Sara Dosa, emerge como uma reflexão visual e poética sobre a transformação irreversível da paisagem islandesa. Diferente de obras que focam apenas na escala catastrófica do aquecimento global, o filme utiliza os escritos do poeta Andri Snær Magnason para conectar o derretimento das geleiras a uma dimensão profundamente pessoal e familiar. A obra funciona como uma cápsula do tempo, preservando não apenas a topografia que desaparece, mas as memórias que nela foram sedimentadas ao longo de décadas.
A herança dos glaciologistas
A narrativa é estruturada a partir da trajetória dos avós de Magnason, os glaciologistas pioneiros Hulda e Árni. Suas pesquisas de campo, registradas em fotografias e arquivos pessoais, servem como o alicerce científico e emocional do documentário. Ao entrelaçar imagens de arquivo com filmagens contemporâneas da Islândia, Dosa estabelece um paralelo direto entre o declínio da saúde dos glaciares e a fragilidade da memória humana. O filme sugere que, à medida que o gelo recua, perdemos também as camadas de história que ali se encontravam congeladas, transformando o registro científico em um inventário de perdas.
A estética da memória
A montagem do filme evita uma estrutura cronológica rígida, optando por um fluxo associativo que mimetiza o próprio funcionamento da lembrança. A trilha sonora composta por Dan Deacon, com texturas eletrônicas e celestiais, amplifica a sensação de estranhamento diante das formações geológicas que, em sua imponência, parecem pertencer a um cenário de ficção científica. Dosa dedica tempo a planos longos de cavernas azuis e estruturas glaciais, reforçando a ideia de que esses elementos não são apenas recursos naturais, mas entidades vivas cuja agonia é capturada pela lente da câmera.
Entre a responsabilidade e o luto
A obra se afasta de polêmicas agressivas para focar na responsabilidade intergeracional. O momento central do documentário recorda a história da geleira Okjökull, que perdeu seu status oficial de geleira em 2014 e, anos mais tarde, recebeu um funeral simbólico por ter sido a primeira a morrer em decorrência da crise climática. A placa memorial redigida por Magnason atua como um lembrete de que o conhecimento sobre o fenômeno já existe, restando apenas a incerteza sobre a nossa capacidade de agir. Ao reframear o aquecimento global como uma crise de memória, o filme convida o espectador a questionar o que estamos escolhendo esquecer.
O futuro do esquecimento
O que permanece em aberto para o público é a eficácia desse apelo emocional em um cenário de saturação informativa. Time and Water não oferece respostas simples ou saídas fáceis, mas estabelece o desafio de manter viva a consciência sobre o que está sendo perdido. A questão que paira sobre a obra é se o registro artístico será suficiente para mobilizar as gerações futuras ou se estamos fadados a lamentar o que já não podemos recuperar.
O documentário não busca ser um obituário, mas um chamado à vigilância sobre o que ainda resta. O valor de Time and Water reside na sua capacidade de tornar a escala geológica do tempo algo que podemos, finalmente, sentir como uma perda pessoal. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





