A jornada de volta durou dias. Cinquenta quilômetros através da Sierra de la Culebra, um terreno selvagem na província espanhola de Zamora. Para o espanto da dezena de habitantes de Linarejos, o vizinho que havia sido removido à força estava de volta. Tomás, um cervo macho de 140 quilos, reapareceu nas ruas do vilarejo como se nunca tivesse saído, reafirmando o que os locais já suspeitavam: aquele era o seu lugar. A sua casa.
O vizinho improvável
Há cerca de dois anos, Tomás adotou Linarejos. Ele não é um animal domesticado, mas encontrou no pequeno povoado um refúgio contra predadores e um lugar para descansar à sombra das casas. Os moradores o acolheram. "Cabemos todos", disse um deles, segundo a imprensa local, resumindo a filosofia da comunidade. A presença do cervo, no entanto, não é um idílio sem fissuras. A lembrança de 'Carlitos', outro cervo que habitou o local e teve um fim trágico, ainda paira no ar, um lembrete da fragilidade desse pacto.
O risco não vem do bicho
O problema, como costuma acontecer nessas fronteiras, não é o animal, mas o homem. A fama de Tomás atraiu turistas que, ignorando sua natureza selvagem, tentam acariciá-lo e tirar fotos a curta distância. Foi essa preocupação com a segurança que levou as autoridades a agir. Agentes ambientais sedaram e transportaram o cervo para uma reserva distante. A operação, vista por alguns moradores como um "fuzilamento", era na verdade uma tentativa de proteger tanto o animal quanto as pessoas. Uma tentativa que Tomás, com sua obstinada caminhada de volta, provou ser inútil.
O retorno de Tomás não resolve o impasse. Ele está de volta ao seu refúgio, mas os riscos que motivaram sua remoção persistem. Sua presença em Linarejos deixa uma pergunta em aberto, que ecoa muito além das montanhas de Zamora: quando um animal selvagem escolhe viver entre nós, a quem pertence a decisão sobre o seu destino?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





