Um memorial realizado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 16 de outubro celebrou a vida e o legado de Susumu Tonegawa, professor da instituição por mais de quatro décadas e laureado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1987. Colegas, ex-alunos e amigos reuniram-se, tanto presencialmente quanto online, para compartilhar lembranças que pintaram um retrato multifacetado de um cientista renomado por suas descobertas em imunologia e memória, mas igualmente admirado por sua humanidade, gentileza e entusiasmo contagiante pela ciência.
As homenagens, proferidas por 16 oradores, focaram menos nas premiações e mais no impacto pessoal e na inspiração que Tonegawa proporcionou. Myriam Heiman, diretora do Picower Institute for Learning and Memory (fundado por Tonegawa como Center for Learning and Memory em 1994), relatou que o trabalho de Tonegawa em imunologia e memória a inspirou desde sua graduação em Princeton. Amy Keating, chefe do departamento de Biologia do MIT, destacou a paixão de Tonegawa pela biologia molecular, que o levou a arriscar e se mudar para os EUA nos anos 1960 para cursar pós-graduação, persistindo mesmo com as incertezas da área.
Um Mentor Exigente e Inspirador
O legado de Tonegawa como mentor foi um tema recorrente. Arvind Govindarajan, ex-aluno de doutorado e hoje consultor na McKinsey & Co., ingressou no laboratório de Tonegawa em 1999 movido pela curiosidade sobre o cérebro, sem ter formação prévia em neurociência. Ele relembrou o incentivo de Tonegawa para que os alunos fossem ambiciosos, citando a frase: “É irrelevante o que você sabe. Só o que você quer trabalhar é relevante.” Tonegawa também aconselhava a busca pela perfeição na publicação, mas com a ressalva de que “um artigo torna o periódico bom, não o contrário”. Tom McHugh, outro ex-aluno, ecoou o conselho de Tonegawa sobre não descansar sobre os louros, citando o provérbio japonês: “Após a vitória, aperte seu capacete”.
A exigência de Tonegawa, no entanto, era direcionada primeiramente a si mesmo. Juan Lafaille, que foi orientado por Tonegawa nos anos 1980, afirmou que ele era “pelo menos, tão exigente consigo mesmo quanto era conosco”. Tomás Ryan, que realizou pós-doutorado no laboratório de Tonegawa, descreveu-o como uma exceção à regra de que não se deve conhecer seus heróis, pois Susumu foi um mentor excepcional, cujos ensinamentos ele aplica em seu próprio laboratório em Dublin.
Construtor de Comunidades e Edifícios
Tonegawa é amplamente lembrado como um construtor de comunidades, sendo a fundação do Picower Institute um de seus maiores feitos. Nergis Mavalvala, reitora da Escola de Ciências do MIT, elogiou sua visão em criar um centro de neurociência com impacto que transcende seu trabalho pioneiro em memória. O instituto hoje abriga 16 laboratórios e cerca de 400 pessoas, além de centenas que passaram por ali. Matt Wilson, o primeiro professor contratado para o centro, destacou a confiança inabalável de Tonegawa no sucesso do projeto, que culminou na construção do Edifício 46. Govindarajan relembrou o envolvimento de Tonegawa no design do prédio, colaborando com o arquiteto Charles Correa para otimizar cada espaço.
Barrie Zesiger, membro do MIT Corporation e amiga de longa data, compartilhou uma anedota sobre Tonegawa observando um trem passar sob o novo edifício, demonstrando uma alegria infantil com a mínima vibração sentida, o que revelava sua profunda conexão com o ambiente que ajudou a criar.
Um Legado de Honestidade e Alegria
Li-Huei Tsai, diretora do Picower Institute, descreveu Tonegawa como "invariavelmente honesto", mas também caloroso e solidário, que nunca perdeu seu senso de admiração. Ela valorizou enormemente sua honestidade, lamentando a perda de seu conselho sábio. Michele Pignatelli, membro do laboratório há muito tempo, compartilhou a transição de tristeza para gratidão ao saber da morte de Tonegawa, afirmando que trabalhar com ele foi a maior honra de sua vida e que manterão sua chama acesa.
Peter Mombaerts, ex-aluno de doutorado de Tonegawa, foi um dos poucos a mencionar o Prêmio Nobel, mas apenas para ressaltar que Tonegawa não sofria de "Nobelite", a perda de humildade que por vezes afeta laureados. Quentin Ferry, um pós-doutorando, compartilhou um momento tocante: Tonegawa brincando alegremente com sua filha com deficiência em um churrasco do laboratório, vendo nela apenas uma menina querendo brincar, e não uma condição a ser evitada. Ferry desejou que, além da lembrança de sua genialidade, sua bondade também seja carregada adiante.
Um fundo memorial foi lançado com uma doação de US$ 100.000 para apoiar pesquisas movidas pela curiosidade no Picower Institute, garantindo que o espírito de descoberta de Tonegawa continue a inspirar futuras gerações de pesquisadores.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT News





