A primeira experiência de Tony Yoseloff com investimentos remonta à sua infância, quando, por volta dos 10 anos, seus pais lhe emprestaram alguns milhares de dólares para comprar e vender figurinhas de beisebol. Essa jornada inicial, embora não tenha gerado grandes lucros devido à subestimação do valor do seu trabalho, moldou uma carreira focada em extrair o máximo de cada operação. Hoje, Yoseloff é sócio-gerente e diretor de investimentos da Davidson Kempner (DK), um fundo de hedge que administra US$ 40 bilhões em ativos. A DK, especializada em dívidas em dificuldades e investimentos baseados em eventos, como arbitragem de fusões, opera com um perfil discreto, mas com um histórico de confiabilidade que a consolidou como uma das maiores investidoras em crédito em Wall Street.
Com um patrimônio líquido estimado em US$ 1,3 bilhão, Yoseloff, de 52 anos, assumiu a liderança da DK em 2020. Sua formação jurídica, combinada com um olhar atento aos detalhes, é frequentemente citada como um diferencial. "Quando você lida com alguém com formação jurídica, geralmente é muito meticuloso, e Tony é exatamente assim", afirma Troy Rohrbaugh, copresidente do JPMorgan. A DK, fundada em 1983 por Marvin Davidson e posteriormente com a entrada de Tom Kempner, abriu-se a investidores externos em 1987, com um investimento notável de David Swensen, da Universidade de Yale, em 1990. Yoseloff ingressou na firma em 1999, após se destacar em um estágio, e rapidamente demonstrou sua capacidade de identificar riscos, como no caso de uma dívida de uma rede de asilos que ele recusou, evitando uma perda significativa.
O Mecanismo de Yoseloff: Discrição e Análise Profunda
A estratégia da Davidson Kempner se distingue pela sua abordagem analítica e, por vezes, contraintuitiva. Em vez de buscar grandes saltos de valor em operações de alto risco, a firma foca em identificar oportunidades onde a avaliação de risco e retorno, mesmo que modestos em termos de percentual, são consistentemente favoráveis. O fundo principal da DK, por exemplo, registrou uma rentabilidade líquida anual de 6,5% nos últimos 10 anos, enquanto fundos de crédito privado alcançaram 12,3% e 8,6%. Sua pior perda em 25 anos foi de 9,7% em 2008, recuperada com um ganho de 20% no ano seguinte. Essa resiliência é fruto de uma análise profunda, como evidenciado pelo investimento em Iridium Communications no final dos anos 90. Apesar do "desastre financeiro absoluto" que o projeto se tornou, Yoseloff recomendou investir na dívida da empresa a 30 centavos por dólar, posteriormente recuperando 70 centavos após uma longa disputa legal.
O modelo de negócios da DK, que gerou US$ 28,9 bilhões em lucros líquidos desde sua fundação, é construído sobre a paciência e a precisão. Yoseloff, que assumiu o controle total da firma em janeiro de 2020, tem sido um defensor da cautela em um mercado muitas vezes impulsionado pela euforia. Ele próprio expressou ceticismo em relação à ideia de que "empréstimos corporativos diretos pudessem gerar retornos consistentes de dois dígitos praticamente sem inadimplências", uma crença que a DK nunca compartilhou. Essa postura conservadora, porém analítica, permitiu à firma navegar por crises como a pandemia de Covid-19, onde a DK realizou investimentos lucrativos em empresas como Playa Hotels & Resorts, obtendo ganhos em todas as fases do investimento.
Implicações para o Mercado de Crédito
A visão de Yoseloff sobre o futuro do crédito é marcada por um alerta sobre o aumento da inadimplência. Ele prevê que a taxa real de calotes em empréstimos públicos e privados se estabilize em torno de 5-6% a longo prazo, com retornos de um dígito médio em empréstimos corporativos diretos. A expectativa é que, se os calotes aumentarem no curto prazo e mais empresas privadas buscarem financiamento de resgate, a DK esteja bem posicionada para se beneficiar. Essa perspectiva contrasta com o otimismo generalizado que prevaleceu no início da década de 2020, quando muitos acreditavam em um cenário de juros baixos e inadimplência mínima.
O gestor aponta para a Inteligência Artificial como um fator que pode ter mascarado pressões econômicas. "Acho que em grande parte se deve à IA. Nos últimos anos, houve tanto investimento em IA neste país que evitou as subidas das taxas de juros", afirma. No entanto, Yoseloff antecipa um cenário onde o gasto em IA possa desacelerar, enquanto as taxas de juros permaneçam elevadas, ecoando a turbulência do início dos anos 2000, quando a inadimplência de títulos de alto rendimento disparou de 5% para 12,8% após o estouro da bolha das pontocom e o colapso das telecomunicações.
Proteção Contra Riscos e Oportunidades Futuras
Diante desse cenário de potenciais riscos crescentes, Yoseloff tem direcionado investimentos para empréstimos lastreados em ativos. Essa estratégia busca proteger o portfólio contra o aumento da inadimplência, oferecendo, ao mesmo tempo, retornos potencialmente maiores. A diversidade de garantias para esses empréstimos – que podem incluir carteiras de crédito, imóveis, barcos ou aeronaves – sugere uma flexibilidade inerente à estratégia. Yoseloff destaca que, enquanto os empréstimos corporativos diretos enfrentam forte concorrência, os empréstimos lastreados em ativos apresentam um cenário com menos competidores, abrindo espaço para a DK.
A análise de Yoseloff sugere que o mercado de crédito pode estar entrando em uma nova fase de normalização, onde os riscos, antes subestimados, começarão a se materializar. A DK, com sua expertise em identificar e gerenciar dívidas em dificuldades, parece preparada para capitalizar sobre essas mudanças. A empresa, que tem evitado o tipo de empréstimos diretos e financiamento padrão de aquisições que impulsionaram o crédito privado, pode encontrar novas oportunidades em um ambiente onde a seletividade e a análise criteriosa de risco se tornam primordiais.
O cenário de Yoseloff não é de pânico, mas de vigilância. A história da DK é marcada por sua capacidade de prosperar em ciclos de crédito, aproveitando as ineficiências e os medos do mercado. A previsão de um aumento na inadimplência de crédito, embora sombria, pode ser vista pela lente de Yoseloff como mais uma oportunidade para aplicar sua filosofia de investimento disciplinada e focada em valor. O que resta saber é a velocidade e a magnitude com que essas previsões se concretizarão e como o mercado, em geral, reagirá.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





