O turismo em Tóquio está prestes a encontrar um novo obstáculo. No bairro de Shinjuku, um dos mais efervescentes e procurados por visitantes, uma nova política vai proibir a maior parte dos aluguéis de curta duração, impactando diretamente a operação de plataformas como Airbnb e Booking. A medida, anunciada pela prefeitura local, visa conter os efeitos do que se convencionou chamar de “turismo excessivo”.
A decisão não é um caso isolado, mas um sintoma da crescente tensão entre o modelo de negócios das plataformas de hospedagem e a qualidade de vida das comunidades locais. Segundo reportagem do InfoMoney, a iniciativa em Shinjuku representa um esforço para devolver a tranquilidade às áreas residenciais, colocando em xeque a lógica de que toda porta pode, ou deve, ser um hotel.
A balança entre turismo e comunidade
O estopim para a mudança foi a pressão dos próprios moradores. Shinjuku concentra cerca de 10% dos 42 mil aluguéis de temporada listados no Japão, e a convivência com o fluxo intenso de turistas gerou um rol de queixas: barulho excessivo, descarte inadequado de lixo e desrespeito a regras locais, como a proibição de fumar em determinados locais. O aumento dos preços dos imóveis, impulsionado pela demanda turística, também é um fator de preocupação.
A nova regulação, que proíbe hospedagens privadas em zonas residenciais e próximas a escolas, tem respaldo legal. A Agência de Turismo do Japão recentemente autorizou os municípios a regularem o setor para proteger ambientes considerados "tranquilos". É uma descentralização do poder, transferindo a decisão do nível nacional para quem sente o impacto direto: a vizinhança.
Um problema global, uma solução local
O dilema de Shinjuku é o mesmo de cidades como Nova York e Barcelona, que também implementaram restrições severas ao Airbnb e outras plataformas. O pano de fundo é o debate sobre as externalidades do modelo de "economia do compartilhamento": enquanto as plataformas e os anfitriões lucram, os custos sociais — como a sobrecarga da infraestrutura e a descaracterização de bairros — são absorvidos pela comunidade.
A abordagem de Tóquio é cirúrgica. Em vez de uma proibição ampla em toda a metrópole, a regulação atua em nível de bairro, mirando especificamente as áreas onde o conflito entre residentes e turistas é mais agudo. Resta saber se essa tática granular será mais eficaz do que as proibições generalizadas adotadas em outras capitais globais.
No fim, a questão transcende o turismo. Trata-se de soberania urbana e de quem tem o poder de moldar o caráter de um bairro. A decisão de Shinjuku sinaliza que, para algumas das cidades mais densas do mundo, a resposta está em reafirmar o controle local, mesmo que isso signifique impor limites à disrupção tecnológica.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





