Tor Myhren completa uma década à frente da comunicação de marketing da Apple, um período marcado por uma expansão de valor de mercado sem precedentes — saindo de US$ 540 bilhões para a casa dos US$ 4,3 trilhões. Em entrevista exclusiva à Fast Company, o executivo, que anteriormente transformou a Grey Advertising, detalha como a cultura de experimentação da companhia sobreviveu a um dos seus momentos mais críticos: a repercussão negativa do anúncio “Crush”, lançado em maio de 2024.
O episódio, que gerou críticas globais ao retratar instrumentos criativos sendo destruídos para dar lugar ao iPad Pro, serviu como um choque de realidade para a empresa. Myhren, que assumiu a responsabilidade pelo erro, destaca que o incidente não deve paralisar a criatividade da marca, mas sim servir como um lembrete de que a percepção pública em um cenário de alta sensibilidade tecnológica pode ser implacável.
A transição da agência para a cultura Apple
Quando Myhren deixou a Grey em 2016, a mudança foi vista como um movimento atípico para um diretor criativo de agência. Ele admite que, inicialmente, subestimou a escala e a complexidade operacional da Apple. A transição exigiu que ele adaptasse sua visão criativa para um ambiente onde o produto dita a narrativa, em vez de ser apenas o objeto de uma campanha.
Ao longo desses dez anos, ele manteve a consistência criativa como pilar central, mesmo enquanto a Apple diversificava seu portfólio para incluir categorias como serviços, vestíveis e áudio. A estratégia, segundo Myhren, baseia-se em uma disciplina rigorosa de produto, na qual a publicidade deve ser tão precisa e funcional quanto o hardware que promove.
O mecanismo de resposta ao erro
O caso “Crush” funciona como um estudo de caso sobre a gestão de crises em empresas de grande porte. Myhren reuniu suas equipes imediatamente após a retirada do anúncio para reforçar que o medo não deveria ditar as futuras decisões de marketing. A filosofia interna, mantida mesmo sob pressão, é a de que evitar riscos criativos seria mais prejudicial à marca a longo prazo do que um erro pontual.
O executivo defende que a publicidade da Apple deve continuar a ser ousada. O mecanismo de sucesso da marca, segundo ele, não reside apenas na execução técnica, mas na capacidade de manter o tom da marca mesmo diante de mudanças drásticas nas ferramentas de produção e na sensibilidade do público consumidor.
Implicações para a era da inteligência artificial
O marketing global enfrenta uma transformação acelerada pela IA, e Myhren projeta que o setor será radicalmente diferente em apenas três anos. Para a Apple, isso implica em repensar a velocidade da produção de conteúdo sem sacrificar a estética e a qualidade que definem a empresa desde a era de Steve Jobs e Lee Clow.
Concorrentes e reguladores observam de perto como a Apple integrará essas novas tecnologias em sua comunicação. A tensão central permanece entre a necessidade de agilidade que a IA proporciona e a manutenção da curadoria humana que caracteriza a identidade visual da companhia no mercado global.
O horizonte incerto da comunicação
O futuro da publicidade, na visão de Myhren, é permeado por incertezas. Ele reconhece que qualquer tentativa de prever com precisão o cenário de médio prazo é uma especulação arriscada, dado que as ferramentas de criação estão evoluindo mais rápido que a capacidade de adaptação das estruturas tradicionais.
O próximo ciclo da Apple sob a liderança de Myhren será definido por sua capacidade de navegar entre a inovação tecnológica e a manutenção de uma identidade de marca que, por décadas, serviu como referência global de excelência criativa. A trajetória do executivo sugere que, independentemente das ferramentas, a essência do marketing continuará ancorada na clareza da mensagem.
Com reportagem de Fast Company
Source · Fast Company





