Um acordo histórico de 31 milhões de euros (cerca de US$ 35 milhões) foi firmado com mais de 100 trabalhadores estrangeiros que alegam ter sido explorados durante a construção do novo e vasto complexo do consulado dos Estados Unidos em Milão. A quantia representa o maior acordo já registrado na Europa por exploração trabalhista, segundo promotores. Os acordos foram assinados em um hotel na cidade, com a maioria dos trabalhadores sendo originários da Índia, mas também de Nigéria, Quênia e Bangladesh.

O Mecanismo do Acordo e as Alegações

Os acordos, que começaram a ser assinados na terça-feira, preveem pagamentos que podem chegar a 90.000 euros (aproximadamente US$ 101.000) por trabalhador. Segundo o administrador judicial nomeado, Francesco Brigatti, os valores incluem horas extras não pagas, reembolso por deduções ilegais referentes à moradia e indenizações significativas. A componente de danos, em particular, representa 60% a 70% do total de horas extras, um percentual consideravelmente acima do usual de 10% a 30% em casos semelhantes. As alegações contra a Caddell Construction, empresa sediada no Alabama e responsável pela obra, incluem pagamento inferior a US$ 2 por hora, deduções ilegais de salários para cobrir custos de moradia, negação de horas extras e ameaças. Trabalhadores indianos relataram ter pago até 5.000 euros (US$ 5.600) a recrutadores para conseguir os empregos, embora o acordo não aborde diretamente os abusos ocorridos na Índia, onde os promotores não puderam investigar.

Implicações para os Trabalhadores e a Empresa

Para os trabalhadores, o acordo representa uma mudança de vida. Dilip Ram, um pedreiro indiano que trabalhou no local por mais de dois anos, expressou alívio, afirmando que o dinheiro ajudará sua família de cinco pessoas em Bihar. "A situação está melhor agora... temos mais descanso", disse Ram após assinar o acordo. Além dos pagamentos, os trabalhadores receberão permissões para trabalhar legalmente na Itália, mesmo fora do canteiro de obras da Caddell. A Caddell Construction, que atua como empreiteira para embaixadas e consulados dos EUA globalmente, declarou estar cooperando com as autoridades italianas e revisando suas práticas de subcontratação. A empresa afirmou que o acordo não constitui admissão de responsabilidade. A investigação contra a Caddell permanece aberta, com a expectativa de que os pagamentos sejam concluídos até fevereiro. Dois gerentes investigados por extorsão e facilitação de imigração ilegal permanecem em prisão domiciliar.

O Papel das Autoridades e Sindicatos

O caso chamou a atenção das autoridades americanas, com o Departamento de Estado dos EUA afirmando ter tolerância zero para atividades ilegais e que está acompanhando o caso de perto, trabalhando em conjunto com as autoridades italianas. O consulado indiano também ofereceu assistência. Sindicatos de construção, como o Feneal Uil, que auxiliam os trabalhadores, destacaram a escala sem precedentes da exploração. Trifone Radogna, organizador do sindicato, mencionou que nunca haviam encontrado um sistema de exploração trabalhista dessa magnitude, onde a dignidade dos trabalhadores foi comprometida, deixando-os sem acomodação e alimentação, e com desvantagens financeiras desde o início. A investigação judicial, liderada pelo Promotor Paolo Storari, focou em garantir não apenas o pagamento de salários devidos, mas também em compensar os trabalhadores por danos morais e físicos sofridos.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Mão de Obra Estrangeira

Embora o acordo represente um marco na proteção dos direitos trabalhistas de estrangeiros na Europa, várias questões permanecem. A investigação contra a Caddell Construction continua, levantando dúvidas sobre a extensão da responsabilidade da empresa e de seus subcontratados em outros projetos. A eficácia das permissões de trabalho concedidas aos trabalhadores na Itália também será observada, bem como o impacto a longo prazo deste caso na contratação e tratamento de mão de obra estrangeira em grandes projetos de infraestrutura. A colaboração entre autoridades italianas e americanas, e o papel ativo dos sindicatos, foram cruciais para alcançar este desfecho, mas a vigilância contínua será necessária para prevenir futuras explorações e garantir condições de trabalho dignas para todos.

Este acordo recorde em Milão envia uma mensagem clara sobre a importância da fiscalização e da responsabilização, mesmo em projetos de grande escala e com envolvimento internacional, reforçando a necessidade de padrões trabalhistas globais mais rigorosos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune