O ensaísta e tradutor Ilan Stavans, em uma carta aberta a uma ex-aluna, desmistifica a figura do tradutor literário, comparando seu trabalho a uma forma de "impostura" criativa e definindo-o como um arquiteto de pontes entre culturas e épocas. A reflexão surge a partir de questionamentos sobre a prática de compor poemas na voz de autores consagrados, como Akhmatova, Celan e Drummond de Andrade, e sobre a própria identidade profissional do tradutor em um mundo cada vez mais acelerado e, por vezes, monolíngue.
O Ofício da "Impostura" Literária
Stavans inicia a discussão abordando a prática de "personificar" autores renomados, uma técnica que ele emprega para expandir o universo literário. Longe de ver isso como fraude, ele o define como um ato de liberdade criativa, espelhando o trabalho de tradutores que, como Samuel Beckett ou Richard Wilbur, transitaram com maestria por diversas línguas e estilos, muitas vezes sem dominar plenamente o idioma original. A tradução, segundo Stavans, não é mera repetição, mas uma forma de "arqueologia verbal", onde o tradutor resgata e revitaliza palavras e expressões, conferindo-lhes nova vida em outro contexto linguístico. A "impostura literária", portanto, torna-se um caminho para a criação de "novos originais", onde a voz do autor original é expandida e reinterpretada, desafiando a noção estrita de autoria.
Tradução como Ponte e Investimento
O ensaísta reconhece os desafios inerentes à profissão, especialmente a remuneração frequentemente modesta. No entanto, ele aponta para uma mudança gradual no cenário, com o aumento de programas acadêmicos de tradução, o fortalecimento de associações de defesa dos direitos dos tradutores e o reconhecimento crescente em prêmios literários e editoriais. Stavans argumenta que o domínio de múltiplas línguas é um investimento valioso, abrindo um leque de oportunidades. Ele traça paralelos com a experiência imigratória, onde a adaptação e a aquisição de novas línguas são cruciais para a sobrevivência e o florescimento. Assim como imigrantes reinventam suas identidades e contribuem para a diversidade cultural, tradutores enriquecem o idioma e a literatura, sendo "construtores de mundos" que permitem a coexistência e a compreensão entre diferentes culturas. A figura do tradutor, assim como a do imigrante, é vista como inventora, criadora de neologismos e pontes.
Reflexões sobre Identidade e Linguagem
Nascido em uma família de imigrantes judeus na Cidade do México, Stavans cresceu em um ambiente multilíngue, onde o "code-switching" era natural. Essa vivência moldou sua percepção da tradução como uma ferramenta essencial de comunicação e adaptação. A mudança para Nova York, em busca de uma carreira literária em inglês, intensificou sua jornada linguística, transformando o inglês em seu "epicentro" e palco para a "peça" do presente. Ele compara a busca pela fluência em um novo idioma com a experiência imigratória, um processo de dar e receber que, no final, resulta em uma nova forma de ver a vida. Essa imersão o levou a apreciar a profundidade e a história de cada palavra, desenvolvendo um amor por dicionários e etimologias, e a perceber que a tradução é um ato de autoconhecimento e reconstrução.
O Valor da Qualidade sobre a Quantidade
Ao discorrer sobre a motivação para criar heterônimos, Stavans revela um desejo intrínseco de transcender os limites de sua própria identidade, espelhando a capacidade de um ator de encarnar diferentes personagens. Essa liberdade, para ele, reside na capacidade de existir vicariamente através de outras vozes, cada uma com sua própria autonomia e perspectiva. Ele enfatiza que o valor da literatura, e da tradução em particular, não reside na quantidade de leitores, mas na qualidade e profundidade da experiência que cada obra proporciona a quem a lê. Em uma era de "sincronicidade global", onde leitores de diferentes partes do mundo podem acessar simultaneamente a mesma obra traduzida, o tradutor se consolida como um agente fundamental na construção de um presente literário compartilhado e na expansão contínua do universo literário. A tradução, longe de ser um ofício secundário, é apresentada como um pilar essencial para a vitalidade e a interconexão das culturas globais.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





