A indústria de tecnologia de defesa vive um momento de euforia, mas Trae Stephens, cofundador da Anduril e sócio da Founders Fund, enxerga sinais claros de exaustão. Em um cenário onde o capital de risco flui com intensidade inédita, Stephens alerta que o setor caminha para um ajuste severo. O executivo, que construiu a Anduril após identificar uma lacuna crítica no mercado, agora observa com cautela a inflação de ativos que, segundo ele, desafia a lógica financeira fundamental.
Segundo reportagem da Fortune, o otimismo desenfreado dos investidores está criando uma desconexão perigosa entre o valor atribuído às startups e a realidade operacional do setor. Enquanto empresas de defesa estabelecidas negociam a múltiplos de 2 a 2,5 vezes a receita, muitas startups em estágio intermediário sustentam avaliações baseadas em múltiplos de 50, 100 ou até 200 vezes. Essa disparidade, argumenta Stephens, é insustentável e deve resultar em uma purga inevitável nos próximos anos.
O choque de realidade no setor de defesa
A tese de Stephens baseia-se na premissa de que o mercado está precificando a oportunidade de defesa como se houvesse espaço para vinte novos gigantes do porte da Anduril. No entanto, a realidade do setor é marcada por barreiras de entrada monumentais e ciclos de vendas extremamente longos junto ao governo. O financiamento de capital de risco para defesa atingiu 17,9 bilhões de dólares em 2025, um salto que reflete o apetite por inovação, mas também uma possível negligência em relação aos fundamentos de longo prazo.
Historicamente, o setor de defesa americano sempre foi um ambiente de poucos vencedores. A transição para modelos de tecnologia ágil, embora necessária, não altera a natureza do cliente final: o Estado. A expectativa de que o mercado possa absorver uma infinidade de novos players com valuations bilionários ignora que apenas uma fração dessas empresas conseguirá escala real. O resultado, segundo o executivo, será uma série de rodadas de financiamento que terminarão em frustração quando o capital secar.
A armadilha do ego e a consolidação
O mecanismo dessa crise iminente passa pelo comportamento dos fundadores. Stephens observa que muitos empreendedores se recusam a aceitar aquisições por valores inferiores às suas últimas rodadas de investimento, movidos por um ego que impede ajustes de rota necessários. Quando a realidade do mercado bater à porta, a falta de flexibilidade levará muitas dessas empresas ao colapso, em vez de uma saída estratégica ou fusão saudável para o ecossistema.
Vale notar que a infraestrutura governamental, como o Office of Strategic Capital e o uso de acordos de autoridade de transação (OTA), tem facilitado a entrada de novos players, reduzindo a burocracia tradicional. Entretanto, o acesso facilitado ao orçamento público não garante a sobrevivência de um modelo de negócio ineficiente. A separação entre o que é tecnologia disruptiva e o que é apenas ruído financeiro será o principal filtro nos próximos ciclos de mercado.
Implicações para o ecossistema global
Para investidores e reguladores, o cenário aponta para uma tensão crescente. Se o setor de defesa for inundado por empresas incapazes de entregar escala, a percepção de risco pode aumentar, prejudicando até mesmo os players sólidos que realmente oferecem valor estratégico. O paralelo com outros setores tecnológicos que sofreram ajustes de valuation é evidente, mas a natureza sensível da defesa torna o impacto de uma bolha muito mais complexo e politicamente custoso.
No Brasil, onde o ecossistema de defesa ainda busca maturação, o alerta de Stephens serve como um lembrete sobre a importância da disciplina de capital. A busca por inovação em setores de soberania nacional não deve ser confundida com a busca por retornos rápidos de venture capital. A sustentabilidade de longo prazo depende menos de rodadas de investimento sucessivas e mais da capacidade de integrar soluções tecnológicas aos desafios reais de segurança e logística das forças armadas.
O que observar daqui para frente
A incerteza reside na velocidade com que o mercado corrigirá essas distorções. O ritmo de 2026, que já projeta superar os investimentos do ano anterior, indica que a euforia ainda não atingiu seu ápice. Observar quais startups conseguirão converter contratos governamentais em receita recorrente será o termômetro para distinguir as empresas que possuem substância tecnológica das que são puramente criações financeiras.
O futuro do setor de defesa dependerá de uma seleção natural que, embora dolorosa para muitos investidores, pode ser o único caminho para a maturidade. A pergunta que permanece é se o mercado terá a paciência necessária para suportar o ajuste ou se a pressão por resultados de curto prazo forçará uma bolha ainda maior antes do inevitável colapso. A resposta definirá a próxima década de inovação tecnológica aplicada à soberania e à segurança.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





