A transição energética deixou de ser um debate teórico para se consolidar como o principal vetor de transformação da economia global, mas o caminho está longe de ser linear. Segundo Paula Kovarsky, sócia da Legend Capital, e Clarissa Lins, fundadora da Catavento Consultoria, o erro fundamental do mercado tem sido tratar o processo como uma ruptura imediata, ignorando a complexidade de prazos e infraestrutura.
Durante o programa "O Clima na Faria Lima", as especialistas destacaram que a transição não se resume a uma troca binária de fontes fósseis por renováveis. A tese central é que o mercado está amadurecendo ao tratar a mudança como uma ampliação de portfólio, integrando diferentes tecnologias conforme sua maturidade e viabilidade.
A falácia da substituição rápida
O consenso entre as analistas é que a busca por uma "varinha mágica" tecnológica prejudicou a clareza sobre os desafios reais. A transição exige uma convivência prolongada entre fontes diversas, onde o foco deve ser a agregação de novas possibilidades em vez da destruição sumária de ativos legados.
Esse otimismo inicial, muitas vezes descolado da realidade de capital e engenharia, ocultou a necessidade de investimentos massivos em armazenamento e requalificação da força de trabalho. A transição, por definição, é um processo de décadas que exige transparência sobre os custos de adaptação estrutural.
O clima como variável financeira
A mudança mais significativa nos últimos anos foi a migração do risco climático do campo acadêmico para o centro dos modelos de negócio. Eventos extremos e suas consequências diretas nas cadeias de suprimentos forçaram investidores a precificar o impacto ambiental como uma ameaça real ao fluxo de caixa.
Nesse cenário, a agenda ESG deixou de ser periférica. A contabilidade de carbono surge agora como a "moeda" da nova economia, permitindo que emissões sejam medidas e negociadas, criando incentivos econômicos concretos para a descarbonização em vez de depender apenas de diretrizes políticas.
Segurança energética e geopolítica
O cenário global adicionou a segurança energética como um catalisador inesperado. A confiabilidade do fornecimento ganhou peso, tornando a diversificação de fontes domésticas de baixo carbono uma vantagem competitiva na atração de investimentos internacionais, superando, por vezes, a própria pauta da descarbonização.
Para o Brasil, o desafio permanece na execução. Apesar de possuir uma matriz limpa e vantagens naturais, o país ainda enfrenta entraves regulatórios. O problema, segundo as especialistas, não é a escassez de capital, mas a dificuldade em estruturar projetos que sejam tecnicamente e financeiramente investíveis.
O horizonte da transição
O futuro da transição energética será marcado por ciclos de ajustes e correções de rota, longe da euforia ou do retrocesso. O desafio para os próximos anos reside em equilibrar a urgência climática com as limitações tecnológicas e as tensões geopolíticas que definem a estabilidade global.
O que permanece incerto é a velocidade com que setores industriais intensivos conseguirão transpor as barreiras de custo, um ponto que exigirá monitoramento contínuo de policy makers e investidores. A transição é inevitável, mas o sucesso dependerá da capacidade de transformar intenções em infraestrutura operacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · InfoMoney





