O mercado de juros futuros teve uma sessão de reavaliação de riscos nesta terça-feira. As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs) fecharam em alta em toda a curva, com o contrato para janeiro de 2028 subindo 8 pontos-base, para 13,905%, e o para janeiro de 2035 avançando 2,4 pontos-base, para 14,530%. O movimento reflete a digestão de três informações que, juntas, pintam um cenário mais desafiador.
A leitura do mercado é que a convergência de um IPCA marginalmente acima do esperado, uma ata do Copom com tom mais duro e o primeiro vislumbre do cenário eleitoral de 2026 forçou os investidores a embutirem mais prêmio nos preços. É a tríade clássica do mercado brasileiro: macroeconomia, política monetária e risco político, tudo no mesmo dia.
A desancoragem em três atos
O primeiro sinal veio da inflação. O IPCA de julho, com alta de 0,07%, frustrou a expectativa de 0,03% do mercado. Embora a variação seja pequena, ela desafia a narrativa de uma desinflação suave e contínua, especialmente quando o acumulado de 12 meses, em 4,44%, ainda flerta com o teto da meta.
O segundo, e mais pesado, recado veio da ata do Copom. O documento alertou para uma "reação firme" da política monetária caso choques de preços se disseminem e demonstrou preocupação com a inflação de demanda, alimentada por estímulos fiscais. Para os investidores, a mensagem é clara: o ciclo de cortes da Selic pode ser mais lento ou mais curto do que o previamente precificado.
O fator 2026 entra na curva
Completando o quadro, a pesquisa CNT/MDA colocou a sucessão presidencial no radar. Ao mostrar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 48% das intenções de voto contra 39,1% do senador Flávio Bolsonaro, a pesquisa introduz uma variável de incerteza fiscal de longo prazo. Historicamente, o mercado associa a polarização e a proximidade de ciclos eleitorais a um risco maior de expansão dos gastos públicos.
A alta nos vértices mais longos da curva de juros, como o contrato para 2035, é o termômetro mais sensível a essa percepção de risco fiscal. Enquanto o cenário externo, com a leve queda nos rendimentos dos Treasuries americanos, oferecia algum alívio, foram os fatores domésticos que ditaram o tom, lembrando que a trajetória dos juros no Brasil depende de um equilíbrio delicado e permanentemente vigiado entre inflação, credibilidade do Banco Central e a disciplina fiscal do governo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





