Uma divisão emerge no setor de mercados de previsão nos Estados Unidos, com quatro tribos nativas americanas — uma de Oklahoma e três da Califórnia — anunciando parcerias com a Kalshi, uma das principais plataformas de contratos de eventos. A iniciativa, que inclui o lançamento de aplicativos de previsão próprios, representa um novo caminho de geração de receita para comunidades que não se beneficiaram do boom dos cassinos, ao mesmo tempo em que desafia a oposição de outras tribos à indústria.

As tribos Alabama-Quassarte Tribal Town (Oklahoma), Kletsel Dehe Wintun Nation, Greenville Rancheria e Alturas Indian Rancheria (Califórnia) lançaram seus respectivos aplicativos: PokkeTrades, Sovereign Edge, Greenville e AIR Markets. Todas as quatro plataformas operam sob a marca própria das tribos, que também cuidam do marketing e do relacionamento com os clientes. A Kalshi, por sua vez, gerencia a infraestrutura de negociação, o emparelhamento de compradores e vendedores, o processamento de transações e a conformidade regulatória. Os aplicativos se conectam à bolsa nacional da Kalshi, ampliando o alcance para um público mais amplo.

Um Novo Horizonte Econômico

Michael Stopp, vice-presidente de desenvolvimento econômico da Alabama-Quassarte Tribal Town, destacou que os mercados de previsão oferecem uma oportunidade de participação em uma indústria emergente, especialmente para aquelas tribos cujas localizações geográficas limitam a geração de receita. Essa estratégia contrasta com a postura de décadas de muitas tribos, que consideram os mercados de previsão uma ameaça direta aos seus lucrativos negócios de cassinos. O setor de jogos tribais gerou mais de US$ 46 bilhões em receita em 2025, segundo a National Indian Gaming Commission (NIGC), sendo a principal fonte de autogoverno para muitas comunidades nativas.

O Conflito com os Cassinos Tradicionais

A ascensão dos mercados de previsão, como Kalshi e Polymarket — ambos avaliados em mais de US$ 20 bilhões —, tem gerado uma onda de litígios por parte de tribos em todo o país. Alegações de violação de direitos de jogo tribal são comuns, com a Kalshi enfrentando processos de tribos como Blue Lake Rancheria, Ho-Chunk Nation e Mescalero Apache Tribe. As tribos que agora optam pela parceria com a Kalshi veem nos aplicativos de previsão uma alternativa viável para gerar receita sem a necessidade de construir e operar complexas instalações de jogos. A concentração de riqueza no setor de cassinos é notória: apenas 9% das operações respondem por 56% da receita total, enquanto mais da metade dos estabelecimentos faturam menos de 5%. A nova abordagem busca democratizar o acesso a oportunidades econômicas.

Autodeterminação e Oportunidades Emergentes

Eric Wright, CEO da KEDA (braço econômico da Kletsel Dehe Wintun Nation), afirmou que o mercado de commodities digitais oferece a oportunidade de ir além das limitações impostas pela geografia e pela concentração de receita. "A autodeterminação econômica significa ter a autoridade de avaliar oportunidades emergentes e decidir por nós mesmos o que serve aos interesses de longo prazo de nossa Nação", declarou Wright. Essa visão ressalta o desejo de autonomia e a capacidade de adaptação das tribos frente a novas realidades econômicas, buscando diversificar suas fontes de financiamento e fortalecer sua soberania.

Implicações e o Futuro da Indústria

A entrada dessas tribos no mercado de previsão, em parceria com a Kalshi, pode sinalizar uma mudança significativa na dinâmica entre a indústria de jogos tribais e as plataformas de previsão. Enquanto algumas tribos buscam capitalizar sobre essa nova fronteira, outras mantêm sua posição de oposição, receosas com a competição e as implicações legais. O sucesso dessas parcerias poderá incentivar outras tribos a explorarem modelos semelhantes, redefinindo o panorama econômico e a relação entre os mercados de previsão e os direitos de jogo nativos americanos. A forma como os reguladores e o judiciário lidarão com essas novas estruturas de receita e a potencial concorrência com os cassinos tradicionais ainda é uma questão em aberto.

O movimento das quatro tribos representa um passo audacioso na busca por diversificação econômica e autodeterminação. Resta observar como essa estratégia se desdobrará e quais serão as repercussões para o futuro da indústria de jogos e mercados de previsão nos Estados Unidos, especialmente no que tange à soberania e aos interesses das comunidades nativas americanas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune