— O Air Force One deve aterrissar em Pequim no próximo dia 14 de maio levando um presidente americano confiante em sua capacidade de negociação. Mas, segundo análise da Fortune publicada em 10 de maio, a realidade aponta para um cenário de esvaziamento estratégico do lado de Washington. De acordo com a publicação, o secretário do Tesouro, Bessent, chegou a recorrer publicamente à China para ajudar na reabertura do Estreito de Hormuz — um sinal de que Pequim ganhou tração como provedora de estabilidade em energia e commodities.

Desde a detenção de Meng Wanzhou, CFO da Huawei, em 2018, e a subsequente inclusão da companhia em listas de restrições dos EUA, Pequim iniciou uma transição silenciosa para blindar sua economia de choques externos e de eventuais bloqueios de Washington — um processo que, na avaliação da Fortune, redefiniu as fontes de alavancagem entre as duas potências.

A estratégia de resiliência chinesa

Segundo a Fortune, a resposta de Pequim ao cerco tecnológico e comercial foi erguer um dos maiores buffers de commodities do mundo. O governo chinês acumulou reservas estratégicas de petróleo bruto na casa de 1,4 bilhão de barris, volume que a reportagem estima garantir cerca de 115 dias de importações marítimas. Essa margem de manobra tem permitido ao país amortecer choques de oferta e, em momentos de estresse regional, operar com mais flexibilidade em sua diplomacia energética.

Empresas estatais como a Sinopec e a Sinochem ampliaram operações de trading de petróleo e GNL, fortalecendo a posição de Pequim como ator relevante no equilíbrio de curto prazo dos fluxos energéticos na Ásia. Esse movimento reforçou o capital diplomático chinês, especialmente entre países que buscam previsibilidade de fornecimento e menor exposição a sanções.

O mecanismo da dependência crítica

Outro pilar de influência está nas cadeias de terras raras. A China domina o processamento e uma parcela significativa da mineração de elementos como neodímio, samário e ítrio — insumos essenciais para defesa, turbinas eólicas e sistemas de tração elétrica. Essa dominância cria vulnerabilidades para a indústria americana em um momento de recomposição de estoques estratégicos.

Enquanto Washington intensifica controles e barreiras, Pequim tem sinalizado abertura seletiva: ampliou o tratamento tarifário preferencial para países de baixa renda (incluindo diversas nações africanas), flexibilizou temporariamente exigências de visto para cidadãos de alguns países europeus e estimulou o ecossistema de IA com iniciativas de código aberto, como a disponibilização pública do modelo DeepSeek. Em paralelo, a percepção internacional sobre a China tem avançado em vários mercados; edições recentes do Democracy Perception Index indicam que sua imagem global rivaliza mais de perto com a dos EUA, dependendo do recorte geográfico.

Implicações para o equilíbrio global

A tensão entre os blocos já ultrapassa o comércio e toca a segurança nacional. A Fortune descreve um ambiente em que ameaças de novas sanções por parte de Washington encontram resistência explícita de Pequim, que questiona sua legitimação à luz de normas multilaterais. Para tecnologia e defesa, a dependência de insumos chineses torna um desacoplamento abrupto pouco realista — e potencialmente custoso — para formuladores de política nos EUA.

Para o Brasil e outros emergentes, a disputa acelera a fragmentação das cadeias de suprimentos. Navegar entre as duas potências exigirá diplomacia econômica pragmática, reconhecendo a centralidade de Pequim como hub tecnológico e de recursos, com poder para influenciar o ritmo de setores estratégicos globais.

Perguntas em aberto

Resta saber se a diplomacia de Trump conseguirá alterar a percepção de perda de alavancagem americana ou se a cúpula servirá mais como gesto retórico. A capacidade de Pequim de manter sinais de abertura enquanto consolida posições de mercado deve pautar a próxima década.

O modo como a administração americana tratará a dependência de terras raras será um indicador-chave de quem detém poder efetivo nessa relação. Soberania tecnológica e segurança de suprimentos tornaram-se eixos centrais de uma disputa que não se resolverá em uma única visita presidencial.

Com reportagem de Fortune

Source · Fortune