A recente declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a renomeação da inteligência artificial (IA) para "super inteligência" reacendeu um debate antigo sobre a terminologia e os objetivos da tecnologia. Ao argumentar que "artificial" soa "fake" e que a inteligência em questão é "incrível", Trump não apenas tentou cimentar a liderança americana no campo, mas também se inseriu em uma longa tradição de redefinir os contornos do que a IA representa.
A "Super Intelligence Force", criada por ordem executiva, visa coordenar a política de IA dos EUA, mas a tentativa de rebrand, segundo reportagem do New Scientist, ecoa movimentos anteriores, como a declaração de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, de que a "superinteligência" está à vista, e a popularização do termo pelo filósofo Nick Bostrom em seu livro de 2014.
O Jogo de Nomes e Metas
A distinção entre a "super inteligência" de Trump e a "superinteligência" de Bostrom reside nas ambições e na percepção. Para Trump, a renomeação é uma estratégia para enfatizar o "potencial, o avanço rápido e a promessa" das tecnologias de IA, buscando projetar domínio americano. Já a "superinteligência" de Bostrom se refere a um intelecto que excede drasticamente o desempenho cognitivo humano em praticamente todas as áreas de interesse – um patamar ainda distante.
A história da IA é marcada por essa evolução de conceitos. Inicialmente, o debate se concentrava na capacidade das máquinas de "pensar" como humanos. Filósofos como John Searle, em 1980, distinguiram entre "IA fraca" (simulação da mente) e "IA forte" (cognição real emergindo do software), descartando a segunda como absurda. Com o tempo, "IA fraca" evoluiu para "IA estreita" (narrow AI), focada em tarefas específicas, como filtros de spam ou carros autônomos. "IA forte" deu lugar à "inteligência artificial geral" (AGI), um sistema capaz de realizar qualquer tarefa intelectual humana.
Da AGI à Superinteligência: Um Horizonte em Movimento
O conceito de AGI, popularizado por Shane Legg (cofundador da DeepMind), tornou-se o objetivo declarado de grandes empresas como DeepMind e OpenAI. O que antes era visto como um objetivo de ficção científica, hoje atrai investimentos multibilionários, com definições que variam de sistemas "altamente autônomos que superam humanos no trabalho economicamente valioso" a sistemas capazes de gerar lucros bilionários. A própria OpenAI, apesar de ainda não ser lucrativa, já declarou "bem-vindo à era AGI" com o lançamento de modelos como o Astra.
No entanto, a própria AGI permanece com definições fluidas. A superinteligência, conforme definida por Bostrom, é um passo além: um intelecto que supera qualquer ser humano em todas as áreas cognitivas. Alcançar tal nível exigiria não apenas superar gênios como Einstein ou Curie, mas também artistas, filósofos e inovadores como Shakespeare, Da Vinci, Jobs ou Austen. Claramente, estamos longe desse estágio.
Desafios na Medição e Implicações para o Futuro
Um dos principais obstáculos é a própria definição e medição da "inteligência". O quociente de inteligência (QI), tradicionalmente usado para humanos, tem sido aplicado a modelos de IA, com resultados que variam entre 130 e 150. Contudo, essa métrica é falha, enraizada em conceitos ultrapassados e incapaz de capturar a amplitude das capacidades humanas ou de IA. Testes específicos para IA, como o ARC-AGI, buscam avaliar não apenas o desempenho, mas também a eficiência computacional, embora as métricas e os testes continuem a evoluir.
A busca pela AGI e, subsequentemente, pela superinteligência, impulsionada por uma mistura de crença genuína e marketing, enfrenta a incerteza. As definições e métodos de avaliação estão em constante mutação. O que parecia mágica em 2022, como chatbots que respondem a perguntas, pode se tornar comum ou até problemático em poucos anos, como visto com as informações incorretas geradas por ferramentas como o Google AI Overviews. A percepção do que constitui IA avançada muda rapidamente, com avanços em matemática se tornando o foco atual, mas que podem ser superados em breve.
A verdadeira chegada da AGI, se ocorrer, pode não ser um evento singular, mas uma transição gradual, onde a tecnologia avançada se torna tão integrada que simplesmente a aceitamos como parte do nosso cotidiano, talvez sob um novo nome. A tentativa de Trump de renomear a IA para "super inteligência" pode ser vista como um reflexo dessa constante redefinição de fronteiras, buscando não apenas descrever o presente, mas também moldar o futuro percebido da tecnologia e a posição dos EUA nesse cenário.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · New Scientist





