O governo de Donald Trump formalizou a criação do "Escudo das Américas", uma coalizão internacional focada em combater o crime organizado transnacional no continente. Anunciada oficialmente nesta terça-feira (22), a iniciativa já lista 24 organizações criminosas como alvos prioritários, entre elas o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), facções brasileiras proeminentes. O acordo prevê a adoção de medidas conjuntas como congelamento de ativos, restrições de visto e imigração, além da responsabilização de indivíduos que ofereçam suporte material ou logístico a esses grupos. A formação deste bloco representa um esforço significativo dos Estados Unidos para unificar a região em torno de uma agenda de segurança compartilhada, sob a égide da chamada "Doutrina Donroe", uma releitura da Doutrina Monroe do século XIX, que reafirma a primazia americana na segurança do Hemisfério Ocidental.

O que é o Escudo das Américas?

O Escudo das Américas foi concebido em março de 2026, durante uma cúpula convocada por Trump na Flórida. A proposta, apresentada por Washington, articula governos do continente em torno de três eixos principais: impedir interferências estrangeiras na região, combater cartéis e grupos criminosos transnacionais, e conter a imigração ilegal. A iniciativa se insere em uma estratégia mais ampla dos EUA para expandir sua influência política e militar nas Américas, buscando limitar a atuação de potências externas consideradas rivais. A classificação de grupos como PCC e CV como "narcoterroristas" eleva o nível de alerta e pode impactar bancos e fintechs que lidam com transações ligadas a esses grupos, exigindo maior diligência e conformidade regulatória.

Quem participa e por que o Brasil ficou de fora?

Entre os países que aderiram ou participam ativamente das articulações do Escudo das Américas estão Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru, além de outras nações da América Central e do Caribe. A ausência de economias importantes como Brasil e México, e a formação inicial com governos de espectro político mais conservador, levaram analistas a apontarem um componente de alinhamento político na composição do bloco. O Brasil, sob a liderança do presidente Lula, optou por não aderir à iniciativa, citando divergências sobre soberania, o método de combate ao crime organizado e o papel dos EUA na segurança regional. O governo brasileiro defende a cooperação internacional focada em bloquear armas, dinheiro e rotas, mas com operações de segurança sob comando nacional, rejeitando a "terceirização" da proteção de fronteiras e a presença militar estrangeira.

Implicações para o combate ao crime organizado

A declaração conjunta do Escudo das Américas representa a primeira ação coletiva contra organizações criminosas específicas, classificando-as como uma ameaça "imediata e compartilhada". As medidas propostas, como congelamento de bens e restrições migratórias, dependem da implementação pelas leis internas de cada país signatário. A classificação de PCC e CV como terroristas, embora não seja automaticamente válida no Brasil – onde a legislação difere ao focar em motivações políticas, religiosas ou ideológicas para atos terroristas –, eleva o risco reputacional e financeiro para as facções. O governo Trump, em discursos na ONU, comparou cartéis a grupos como o Estado Islâmico, defendendo o uso da força para combatê-los, o que contrasta com a abordagem brasileira que prioriza fatores econômicos e de lavagem de dinheiro, sem um objetivo político de transformação do Estado.

Perguntas em aberto e o futuro da cooperação

Mesmo fora do Escudo das Américas, o Brasil se depara com uma nova realidade de pressão regional e decisões tomadas por uma coalizão que visa impor restrições a suas maiores facções. A iniciativa, que vai além do combate às drogas e inclui a contenção de potências externas e a gestão da imigração, levanta preocupações sobre a militarização e a possível interferência dos EUA nos assuntos internos dos países latino-americanos. A postura brasileira, expressa na fala de Lula de que "o Brasil não cabe no quintal de ninguém", sinaliza uma busca por autonomia e um modelo de cooperação internacional que respeite a soberania nacional. Resta observar como essa dinâmica de alinhamentos e divergências moldará a futura arquitetura de segurança e cooperação no continente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney