A política contemporânea atravessa um momento de incoerência que desafia as estruturas tradicionais de governança. Sob a lente da análise de Damon Linker para a Persuasion, a administração de Donald Trump não é apenas um fenômeno populista convencional, mas a manifestação de uma era "pós-moderna". Nesse cenário, a ideia de verdades universais ou consensos baseados na razão é substituída por uma prática política onde a realidade é moldada para servir a objetivos estratégicos imediatos, sem a preocupação com a coerência narrativa ou a legitimidade institucional.
O fenômeno, segundo a reflexão, encontra paralelos intelectuais inesperados na teoria francesa das décadas de 1980 e 1990. Pensadores como Jacques Derrida e Jean Baudrillard, ao questionarem as "grandes narrativas" e a possibilidade de uma verdade objetiva, acabaram por fornecer, ainda que indiretamente, o arcabouço para um mundo onde o poder é exercido sem o freio de aspirações universais. A política deixa de ser um exercício de persuasão pública para se tornar um campo de batalha onde apenas a força bruta da vontade política importa.
As raízes da desconstrução política
Durante o final do século XX, a crítica pós-moderna emergiu como uma resposta ao que muitos viam como a hegemonia de narrativas ocidentais impositivas. A desconstrução de conceitos como verdade, objetividade e universalidade foi celebrada como um ato de libertação. Contudo, essa erosão intelectual teve um efeito colateral imprevisto: ao remover o terreno comum onde o debate público e o compromisso democrático poderiam florescer, o ambiente político tornou-se um vácuo preenchido pelo cinismo e pelo tribalismo.
Críticos como Allan Bloom já alertavam, em obras como "O Declínio da Cultura Ocidental" (título brasileiro de The Closing of the American Mind), que o abandono de uma orientação voltada para verdades transcendentes deixaria a política à mercê de vontades descontroladas. A leitura atual é que vivemos o ápice dessa profecia. Sem o lastro de normas ou fatos compartilhados, a política torna-se uma sucessão de atos de força, onde a neutralidade das instituições é vista como uma farsa e a governança é reduzida a um jogo de soma zero entre amigos e inimigos.
O mecanismo da presidência pós-moderna
Donald Trump personifica essa transição com uma clareza singular. Para ele, a verdade não é um ponto de partida, mas um instrumento de manobra. A abordagem é pragmática e reversa: primeiro define-se o objetivo político e, em seguida, constrói-se uma narrativa para justificá-lo. Essa inversão lógica é o que torna sua gestão um exemplo de política pós-moderna, onde o fato é maleável e a coerência é descartável frente à necessidade de vitória imediata.
O conflito com o Irã serve como estudo de caso dessa dinâmica. A ausência de uma estratégia clara, acompanhada por justificativas que mudam conforme a conveniência do momento, reflete o que Baudrillard descreveu como a transformação da guerra em um espetáculo midiático. Não se busca mais o apoio público através da razão, mas a manutenção da atenção através de fragmentos contraditórios que impedem o escrutínio profundo, deixando o público em um estado de indiferença ou confusão deliberada.
Implicações para o ecossistema democrático
As consequências desse modelo de governança são profundas para os stakeholders democráticos. Reguladores, funcionários de carreira e instituições internacionais encontram-se em uma posição de desamparo, pois as regras que antes governavam o comportamento estatal foram substituídas pelo capricho do poder executivo. A confiança pública, já fragilizada pela polarização, sofre um golpe final quando as instituições perdem a capacidade de administrar normas de forma equânime.
Para o cenário internacional, a transição é igualmente drástica. A liberalização do comércio e a cooperação multilateral, que antes eram vistas como o padrão ouro da ordem global, agora são tratadas como sacrifícios impostos aos interesses nacionais. Esse isolacionismo, temperado por uma retórica de revanche, sugere que o custo da desconstrução da ordem liberal não será apenas o enfraquecimento das alianças, mas uma instabilidade crônica nas relações internacionais.
O desafio da reconstrução
O que permanece incerto é se a política pode recuperar a capacidade de sustentar aspirações universais em um ambiente tão fragmentado. A alternativa à "guerra de todos contra todos" exige o resgate de princípios reguladores que permitam o diálogo, mesmo entre partes que discordam radicalmente. Sem isso, a política corre o risco de permanecer presa em um ciclo de spin constante, onde a realidade é apenas o que o governante decide que ela seja.
Observar os próximos desdobramentos dessa dinâmica é essencial. Se o modelo pós-moderno de governança se provar sustentável a longo prazo, teremos que repensar as bases da nossa educação política e da nossa defesa das instituições. A questão fundamental não é apenas quem vencerá a próxima eleição, mas se ainda seremos capazes de reconhecer um chão comum onde a democracia possa, de fato, existir.
O cenário atual nos obriga a confrontar o esgotamento de um modelo que, ao tentar nos libertar de verdades absolutas, acabou nos deixando à deriva em um mar de incertezas. A necessidade de encontrar um novo caminho, que concilie a diversidade com a preservação de valores compartilhados, permanece como o maior desafio intelectual e prático da nossa geração.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Persuasion





