A política externa do segundo mandato de Donald Trump tem sido marcada por uma postura que seus principais assessores definem como realismo, uma doutrina que, na prática, parece ignorar as complexidades da diplomacia tradicional. Em momentos de crise, como na recente escalada de tensões entre Israel e Irã, o presidente americano demonstra uma passividade desconcertante, tratando conflitos armados como ruídos de fundo que ele mal consegue moderar. Segundo reportagem da Persuasion, Trump chegou a descrever a guerra com o Irã como um hábito, evidenciando uma desconexão preocupante com a gravidade das decisões tomadas em seu nome.

Essa abordagem não é acidental, mas parte de uma mudança doutrinária que prioriza a força bruta sobre a cooperação multilateral. Assessores como Stephen Miller têm promovido abertamente a ideia de que o mundo é regido exclusivamente pelo poder e pela imposição, descartando as normas internacionais como meras formalidades. Essa retórica marca uma ruptura com a tradição de política externa dos Estados Unidos, que, mesmo em seus momentos mais intervencionistas, buscava revestir suas ações com uma camada de legitimidade global e alianças estratégicas.

A raiz teórica do novo realismo americano

A doutrina que inspira a administração Trump remonta a teóricos como Hans Morgenthau, embora a interpretação atual pareça simplificar conceitos complexos. Morgenthau, escrevendo no pós-Segunda Guerra Mundial, argumentou que o realismo era necessário para conter nações agressivas, sugerindo que a moralidade convencional poderia ser uma fraqueza em um cenário de sobrevivência nacional. Para ele, o equilíbrio de poder era a única via possível para a segurança em um mundo sem um governo global centralizado.

Contudo, a leitura feita por figuras como Stephen Miller e outros defensores da atual gestão parece ignorar a nuance de Morgenthau sobre a moralidade internacional. Enquanto o teórico via o realismo como uma ferramenta para manter o status quo e evitar o caos, a administração Trump utiliza o termo para justificar ações unilaterais que, muitas vezes, geram instabilidade. A confusão entre descrever o mundo como ele é e tentar redesenhá-lo pela força tem levado a resultados incertos, onde a busca por poder imediato acaba corroendo as posições estratégicas de longo prazo dos Estados Unidos.

Mecanismos de poder e a erosão das alianças

O mecanismo por trás dessa política é a rejeição explícita do que Miller chama de niceties (formalidades) do direito internacional. Ao remover o que críticos chamam de folha de figo da diplomacia, a administração busca agir com total liberdade de manobra. Exemplos desse comportamento incluem a intervenção na Venezuela e a postura agressiva em relação ao Irã, onde o cálculo é puramente Westphalian, focado no interesse nacional imediato sem considerar o custo reputacional ou o isolamento diplomático.

Essa estratégia, porém, ignora que o realismo também exige uma compreensão clara da posição estratégica de um país. Ao se distanciar de aliados tradicionais e minar instituições internacionais, os Estados Unidos perdem a capacidade de exercer influência por meio de soft power. O caso de Israel é emblemático: ao adotar uma política de força total após os eventos de outubro, o país viu sua base de apoio global encolher drasticamente, tornando-se mais dependente de um presidente americano cujas próprias ações mostram instabilidade e falta de controle sobre os desdobramentos regionais.

Implicações para a ordem global

A transição para um mundo multipolar regido pelo realismo cru tem consequências profundas para todos os stakeholders globais. Para nações menores, o ambiente torna-se mais volátil, pois as garantias de segurança baseadas em tratados perdem valor diante da vontade de poder das grandes potências. Concorrentes como a Rússia e a China, observando essa tendência, sentem-se encorajados a seguir a mesma lógica, o que pode levar a um ciclo de conflitos onde a diplomacia é vista apenas como um intervalo entre guerras.

No Brasil, essa mudança de paradigma na política americana exige atenção redobrada. A erosão das normas internacionais e o foco exclusivo em interesses de curto prazo podem desestabilizar mercados e forçar países em desenvolvimento a navegarem em um cenário onde a neutralidade se torna cada vez mais difícil de manter. A ausência de uma ordem baseada em regras claras deixa o sistema internacional à mercê das oscilações políticas de Washington, criando um ambiente de insegurança permanente.

O futuro da política externa americana

O que permanece incerto é se a administração Trump conseguirá sustentar essa política sem enfrentar um colapso de suas próprias posições estratégicas. A história mostra que o uso desenfreado da força, sem uma visão de longo prazo ou aliados que compartilhem o ônus da estabilidade, raramente resulta em vitórias duradouras. O custo de ser um exemplar do Estado realista, como provado pelo atoleiro em que a Rússia se encontra na Ucrânia, pode ser muito mais alto do que o previsto.

O futuro próximo exigirá observar se a retórica de força será acompanhada por resultados pragmáticos ou se resultará em um isolamento crescente. A questão central não é se o poder importa — ele sempre importou —, mas se a recusa em utilizar as ferramentas da diplomacia será vista, em retrospectiva, como um erro estratégico fundamental que acelerou o declínio da influência americana no cenário mundial.

A política externa não é apenas a imposição da vontade sobre os outros, mas a arte de gerenciar o poder de maneira que a ordem seja preservada. Ao confundir realismo com niilismo, a administração atual corre o risco de descobrir que, em um mundo onde todos agem apenas em interesse próprio, a capacidade de liderar torna-se, ironicamente, a primeira vítima.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Persuasion