Uma canetada — ou melhor, um post em rede social — de Donald Trump pode gerar uma oportunidade tática para os frigoríficos brasileiros. O ex-presidente americano anunciou a suspensão, por 90 dias, de tarifas sobre a importação de até 300 mil toneladas de carne bovina moída, numa tentativa de baixar os preços no varejo local enquanto o rebanho do país se recupera de mínimas históricas.
Embora a medida pareça um alívio para o setor, a leitura do mercado é mais seletiva. Uma análise do banco Safra, repercutida pelo Money Times, aponta um cenário ligeiramente positivo para a Minerva Foods (BEEF3), mas neutro para gigantes como JBS e Marfrig. A tese é que a oportunidade não está no volume, mas na especificidade do produto.
O jogo da carne moída
A chave da análise está no tipo de carne contemplada pela suspensão tarifária. Os Estados Unidos buscam especificamente carne moída, um produto para o qual os frigoríficos brasileiros são altamente competitivos e possuem capacidade de exportação. A Minerva, com sua forte presença na América do Sul e foco em exportação, estaria particularmente bem posicionada para atender a essa demanda pontual.
A situação é diferente para a Austrália, um dos principais fornecedores de carne para os EUA, com 26% das importações. O país da Oceania tradicionalmente exporta cortes de maior valor agregado para o mercado americano, não competindo diretamente no mesmo segmento da carne moída que o Brasil, que detém cerca de 16% do mercado de importação dos EUA, pode suprir com eficiência.
Uma janela tática, não estratégica
Apesar do otimismo direcionado, é preciso calibrar as expectativas. As 300 mil toneladas em questão representam apenas 2% do consumo total de carne bovina nos EUA e cerca de 11% de suas importações anuais. O volume, portanto, não representa uma mudança estrutural no mercado, mas uma janela de oportunidade de curto prazo. Para o Safra, é um "vento favorável", não uma mudança climática.
A própria informalidade do anúncio, feito na rede social de Trump, a Truth Social, sem um documento oficial da Casa Branca até o momento da análise, adiciona uma camada de incerteza. Mesmo que o Brasil não capture a totalidade do volume, o efeito líquido seria marginalmente positivo, mas não o suficiente para alterar a recomendação neutra do banco para JBS e Marfrig — enquanto mantém a de compra para Minerva.
No fim, o episódio serve como um microcosmo da dinâmica do agronegócio global. Decisões políticas e flutuações de mercado em um país criam aberturas assimétricas para exportadores. A questão que fica é menos sobre o volume total e mais sobre a agilidade de cada empresa em capturar valor em janelas de oportunidade que se abrem e fecham com a mesma velocidade de um post em rede social.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





