Em um comício na Geórgia, Donald Trump ofereceu sua mais recente tese econômica: a palavra “acessibilidade” (affordability) seria uma invenção de seus oponentes democratas para atacá-lo. Prometendo que o preço do petróleo estava prestes a “despencar”, o ex-presidente construiu uma narrativa de otimismo seletivo, celebrando recordes na bolsa de valores e a queda no preço dos ovos. A realidade, contudo, se impôs rapidamente.
Menos de 24 horas após a promessa de Trump, o preço do barril de petróleo tipo Brent ultrapassou a marca de US$ 100 pela primeira vez desde maio, impulsionado por uma escalada de tensões no Oriente Médio. O episódio, detalhado em reportagem da revista Fortune, cristaliza a dissonância fundamental entre o discurso econômico do candidato e as forças estruturais — da geopolítica à percepção do consumidor — que de fato moldam o bolso do eleitor.
A narrativa e a realidade
A estratégia de Trump consiste em enquadrar a economia sob duas óticas distintas. De um lado, ele celebra indicadores que favorecem sua imagem, como os 73 recordes históricos do mercado de ações desde a eleição. De outro, desqualifica as preocupações com o custo de vida como um problema político fabricado. Ao afirmar que “acessibilidade é um problema de negócios, não um problema político”, um aliado no mesmo palanque de Trump inadvertidamente enfraqueceu a principal linha de ataque do ex-presidente contra a gestão de Joe Biden.
Essa dissociação é o ponto cego da campanha. Enquanto a bolsa decola, puxada por um punhado de gigantes de tecnologia e pela aposta em inteligência artificial, a confiança do consumidor americano permanece próxima de mínimas históricas. Segundo análise do J.P. Morgan Private Bank citada pela Fortune, há uma desconexão recorde entre a euforia do mercado financeiro e o pessimismo das famílias. A razão é justamente a “palavra inescapável — acessibilidade”. A alta das ações não se traduziu em alívio no supermercado ou na prestação da casa própria.
O teste geopolítico do petróleo
O caso do petróleo é ainda mais emblemático. Trump atribuiu a iminente queda de preços a um suposto colapso em negociações com o Irã, que, segundo ele, estaria desesperado por um acordo. A realidade mostrou o contrário: ataques de Houthis a navios petroleiros no Mar Vermelho forçaram o desvio de rotas e pressionaram os preços para cima, expondo a fragilidade de tratar um conflito ativo como uma “pequena escaramuça” resolvida.
A retórica de Trump sobre energia também se apoia em dados factualmente questionáveis. Sua alegação de que EUA e Venezuela controlam juntos 62% do mercado global de petróleo é um exagero significativo — dados da BP e da EIA (agência de energia americana) apontam para uma fatia combinada de aproximadamente 24%. Essa imprecisão mina a credibilidade de suas promessas de controlar os preços por meio de negociações de força.
No fim, a mensagem de Trump se resume a um pedido de paciência — “apenas me deem um pouco de tempo” — e uma admissão velada de que os eleitores “podem estar pagando um pouco mais”. O problema é que, para uma família de renda média, esse “pouco mais” representa a necessidade de uma renda anual US$ 50 mil superior à de 2019 para comprar uma casa. É uma realidade que não pode ser descartada como uma simples invenção verbal, especialmente quando o preço da gasolina na bomba responde mais rápido à geopolítica do que aos discursos de campanha.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





