Donald Trump voltou a tensionar as normas internacionais, desta vez com uma ambição extraterrestre. Em sua rede social, a Truth Social, o ex-presidente americano publicou uma imagem gerada por inteligência artificial com a frase “The Moon is ours” (“A Lua é nossa”). A provocação, que se soma a uma série de postagens excêntricas do político, foi reportada pelo portal espanhol Xataka.

O que poderia ser descartado como mero delírio digital é, na verdade, um eco de uma política externa que já vinha testando os limites da governança espacial. A postagem não é um ato isolado, mas a continuação de uma estratégia que busca explorar as ambiguidades de tratados internacionais firmados durante a Guerra Fria, transformando retórica de rede social em um balão de ensaio geopolítico.

O Tratado como ficção

O principal obstáculo à ambição de Trump é o Tratado do Espaço Sideral de 1967. Ratificado por mais de 110 países, incluindo os Estados Unidos, o acordo estabelece o espaço como um bem comum da humanidade, proibindo “apropriação nacional por reivindicação de soberania, uso ou ocupação”. A Lua, portanto, não pode ter um dono. A letra da lei é clara, mas sua aplicação depende da vontade política dos signatários — não existe uma 'polícia do espaço' para garantir sua execução.

Contudo, o tratado possui lacunas notórias, que a própria administração Trump soube explorar. O texto é vago sobre a exploração comercial e a propriedade de recursos extraídos de corpos celestes. Foi nessa brecha que nasceram os Acordos de Artemis, uma iniciativa americana que, na prática, cria um arcabouço legal paralelo para que empresas e nações parceiras possam se apropriar de minerais extraídos na Lua ou em asteroides. A postagem na Truth Social é a versão populista e simplificada desta complexa manobra jurídica.

A retórica de Trump, portanto, serve como um termômetro. Enquanto a imagem gerada por IA pode ser cômica, a intenção por trás dela reflete uma disputa geopolítica cada vez mais séria. Em uma nova corrida espacial que inclui não apenas nações como a China, mas também conglomerados privados como a SpaceX, o consenso de que o espaço “é de todos” está sob forte pressão. A bravata de hoje pode ser a doutrina de amanhã.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka