A tensão entre o turismo de massa e a vida local atingiu um ponto crítico em cidades como Málaga, onde a proliferação de apartamentos turísticos — identificados pela sigla "AT" — gerou uma onda de protestos visíveis nas ruas. O que antes era um fenômeno de convivência tornou-se, segundo reportagem do Xataka, um conflito sobre a própria definição de moradia e pertencimento. A resistência dos residentes, manifestada em adesivos e mensagens hostis, reflete uma fratura profunda na estrutura social das cidades europeias mais visitadas.
O debate ganha contornos filosóficos ao revisitarmos o conceito de hospitalidade desenvolvido por Immanuel Kant em 'Sobre a paz perpetua', de 1795. Embora o filósofo alemão vivesse uma rotina estática em Königsberg, sua análise sobre o direito de visita oferece uma lente lúcida para o presente. Para Kant, a hospitalidade não concede ao visitante o direito de reorganizar o território visitado em proveito próprio, mas apenas o direito de não ser tratado com hostilidade enquanto transita em paz.
A ética da hospitalidade em xeque
Kant argumentava que a conduta inhospitalar das potências coloniais residia no tratamento de terras como se não tivessem dono. Ao trazer essa premissa para o contexto da turistificação contemporânea, percebemos que o problema não reside no ato de viajar, mas na assimetria econômica que permite aos visitantes — e aos agentes que facilitam sua estadia — reconfigurar a cidade. A hospitalidade, quando desvirtuada, torna-se uma forma de colonização econômica que ignora a função social do espaço urbano.
A filósofa Lea Ypi expande essa reflexão ao pontuar que a turistificação se torna nociva quando nega aos residentes uma relação de igualdade. O conflito moral não é contra o indivíduo que chega e se integra, mas contra a dinâmica que prioriza o visitante em detrimento da estabilidade da comunidade local. A neutralidade do mercado é frequentemente usada para camuflar o esvaziamento das cidades, transformando bairros inteiros em ativos de exploração turística.
O papel do proprietário no bem comum
Um dos mecanismos mais insidiosos dessa transformação é a colaboração ativa de proprietários locais que, embora possuam direitos legais sobre seus imóveis, negligenciam sua responsabilidade fiduciária para com o coletivo. A conversão indiscriminada de residências permanentes em unidades de aluguel de curta temporada altera a infraestrutura social e econômica do entorno, tornando o custo de vida proibitivo para quem ali reside.
Essa dinâmica sugere que a propriedade privada, em contextos urbanos, não pode ser exercida de forma isolada do impacto comunitário. O proprietário que ignora o impacto de sua atividade sobre a vizinhança está, na prática, operando sob uma lógica de exclusão. A turistificação, portanto, não é um acidente geográfico ou econômico, mas uma escolha de gestão urbana que prioriza o fluxo de capital externo sobre a continuidade da vida local.
Tensões entre residentes e visitantes
As implicações desse cenário afetam desde reguladores, que tentam conter a pressão habitacional, até o próprio setor de serviços, que se vê dependente de um modelo volátil. A tensão crescente entre residentes e turistas não é apenas um problema de convivência, mas um reflexo da falta de limites claros sobre o que constitui um uso legítimo do território. Cidades que perdem sua identidade para o turismo correm o risco de se tornarem cenários estéreis, desprovidos da vitalidade que, ironicamente, atraiu o turista inicialmente.
Para o ecossistema brasileiro, que enfrenta desafios semelhantes em polos de alto fluxo turístico, o paralelo é evidente. A busca por um equilíbrio que não sacrifique o direito à cidade em nome do desenvolvimento econômico é um desafio que exige mais do que regulação: exige um novo pacto sobre o que significa ser um residente e qual a responsabilidade de quem visita.
O futuro das cidades turísticas
O que permanece incerto é se as políticas públicas atuais serão capazes de reverter a erosão dos tecidos urbanos ou se a tendência de gentrificação turística é irreversível. A questão fundamental para os próximos anos reside na capacidade das cidades de reimpor limites que protejam o bem comum contra a pressão do mercado global.
Observar a evolução desses protestos e as respostas legislativas nas principais metrópoles globais será essencial para compreender a viabilidade do modelo turístico atual. A paz, tanto a perpetua de Kant quanto a urbana de hoje, talvez dependa de uma redefinição urgente sobre quem tem o direito de ditar o ritmo e a forma das nossas cidades. A reflexão permanece aberta, enquanto as ruas continuam a ditar seus próprios limites.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





