O turismo espanhol está em um ponto de inflexão. A métrica tradicional de sucesso, baseada unicamente no número de visitantes, dá lugar a uma abordagem mais holística, que valoriza o impacto econômico, social e cultural gerado nos destinos. Essa transição foi um dos pontos centrais da primeira edição do Tourism & Design Summit 2026, realizado em Madri.

O evento, que congregou mais de 200 profissionais de diversas áreas – turismo, design, cultura, arquitetura, hotelaria, gestão de destinos e academia – clamou por uma mudança de paradigma. A ideia é migrar de uma estratégia focada no volume para uma que priorize o valor intrínseco de cada visita, sem sacrificar a identidade única dos locais. O encontro, sediado no icônico Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, foi impulsionado por instituições como Spain is Excellence, Design Institute of Spain e 110 PERCEB, com o apoio de representantes de museus renomados e universidades.

Valor sobre Volume

Eduardo Prieto, diretor geral da Visa Espanha, destacou uma tendência crescente: mais de 50% dos gastos turísticos no país já se concentram em lazer, cultura e gastronomia. Este dado reforça a ideia de que os viajantes modernos buscam experiências ricas e significativas, e não apenas a contagem de pontos turísticos. Em uma mesa redonda sobre o futuro do turismo, moderada pela CEO da SIE, Ana Alonso, especialistas como Carlos Garrido, presidente da Mesa do Turismo, Prieto e Carlos Jacoste, cofundador da Startups Factory, debateram a necessidade de evoluir de uma mentalidade de 'chegadas' para uma de 'valor gerado'. A proposta é clara: otimizar a contribuição do turismo para a economia local e para a qualidade de vida dos residentes.

Tecnologia e Identidade Local

A tecnologia despontou como uma ferramenta poderosa para otimizar processos e personalizar a experiência do viajante. A inteligência artificial, por exemplo, surge com o chamado comércio agêntico, onde sistemas autônomos podem buscar, selecionar e até realizar reservas em nome do turista, sempre com sua autorização. No entanto, um consenso emergiu: enquanto a tecnologia pode simplificar, são as pessoas que continuarão a fazer a diferença. A interação humana, a autenticidade e a conexão genuína permanecem insubstituíveis. Paralelamente, a preservação da identidade local foi um eixo crucial. Em discussões sobre arquitetura cultural e patrimônio reinventado, o foco foi como intervenções em espaços como o Museu Reina Sofía podem repensar não apenas a estética, mas também a acessibilidade, a sinalização e os serviços, conectando o museu de forma mais profunda com a cidade e a experiência do visitante.

O Papel do Design e da Educação

O design, em suas múltiplas facetas, emerge como um elemento fundamental para a construção desses novos destinos. A mesa ‘Educar para o design estratégico de destinos’, moderada por Paloma Gómez Marín, abordou a importância da formação de profissionais capazes de conceber e implementar tais estratégicas. A convivência harmoniosa com a população local e a própria formação desses futuros gestores de destinos foram temas centrais. Elena Rubio, coordenadora do Centro de Inovação Turística da Sierra Norte de Madrid, apresentou o projeto ‘Paredes que Falam’, uma iniciativa que utiliza arte e design para revitalizar 42 municípios da região, criando novos atrativos turísticos e redirecionando visitantes para áreas menos exploradas, promovendo assim uma distribuição mais equitativa dos fluxos turísticos.

Desafios e Perguntas em Aberto

O Tourism & Design Summit 2026 delineou um cenário de desafios interligados: como integrar a tecnologia sem perder a humanidade, como substituir o volume pelo valor de forma sustentável, como envolver os residentes no desenvolvimento turístico e, crucialmente, como proteger a identidade cultural dos territórios em um mundo cada vez mais globalizado e propenso à homogeneização. Carlos Jacoste ressaltou o ressurgimento do interesse por tradições, ofícios e pelo comércio local como um diferencial competitivo para os destinos nos próximos anos. A jornada culminou com uma exploração gastronômica reinterpretada, conectando a culinária a diferentes municípios da Comunidade de Madri, reforçando a ideia de que a autenticidade local pode ser um poderoso motor de atração.

A reflexão sobre o futuro do turismo na Espanha, portanto, não se resume a números. Ela reside na capacidade de criar experiências autênticas, de valorizar a cultura e a identidade de cada lugar, e de garantir que o desenvolvimento turístico beneficie a todos os envolvidos, residentes e visitantes. A questão que permanece é: quão rápido o setor conseguirá abraçar essa transformação e quais destinos serão os pioneiros nessa nova era do valor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España