É possível desconhecer a trama de “A Odisseia” e, ainda assim, entender perfeitamente o que significa uma jornada “odisseica”. A escritora Monica Hesse, do Washington Post, admitiu recentemente ter encarado uma adaptação do épico de Homero sem ter a menor ideia do enredo, apesar de dominar o adjetivo derivado dele. A anedota, mais do que uma falha de repertório, é a prova viva de como a cultura funciona: por osmose, por impregnação, até que uma obra se torne tão fundamental que podemos falar sobre ela sem de fato conhecê-la.

O fenômeno revela a verdadeira força de uma narrativa como a de Homero. Ela não reside em sua forma original e imutável, mas em sua extraordinária capacidade de servir como um espelho para os anseios de cada época. A viagem de Ulisses de volta para Ítaca é um esqueleto narrativo que cada geração preenche com sua própria carne e seus próprios monstros. O que era uma história sobre a astúcia contra a força bruta, o retorno do guerreiro e a restauração da ordem, pode ser lido hoje como uma alegoria sobre o trauma pós-guerra, a busca por identidade em um mundo fragmentado ou a própria condição do exilado.

Nossos ciclopes talvez não sejam gigantes de um olho só, mas sistemas opacos de poder ou a indiferença de um algoritmo. Nossas sereias talvez não cantem em ilhas rochosas, mas em feeds infinitos que prometem prazer e entregam distração. A Ítaca que buscamos pode não ser um reino à beira-mar, mas um senso de propósito ou pertencimento.

Cada era ganha a “Odisseia” que merece — ou que precisa. A pergunta que permanece, três milênios depois, não é o que Homero quis dizer, mas o que nossa versão da história, contada em telas e páginas, revela sobre quem nos tornamos e o que, afinal, estamos buscando em nossa própria viagem de volta para casa.

Com reportagem de Brazil Valley

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