Uma monumental rede de canais, campos elevados e cumes que se estende por milhares de quilômetros quadrados na Colômbia, construída entre o século I a.C. e o século XI, foi por muito tempo assumida como obra de uma sociedade com forte poder central. Novas evidências, no entanto, estão virando essa premissa de cabeça para baixo. Um estudo publicado na revista Communications Sustainability sugere que o chamado sistema hidráulico Zenú foi, na verdade, construído por meio de trabalho coletivo e descentralizado.

A descoberta, baseada em análises detalhadas de imagens de satélite e modelagem de mão de obra, desafia a noção quase instintiva de que projetos de infraestrutura em larga escala exigem uma organização hierárquica e coercitiva. A leitura aqui é que a complexidade da obra não implicou, necessariamente, uma complexidade no poder. A pesquisa quantifica o que antes era um debate teórico, oferecendo um novo prisma para entender a organização de sociedades antigas.

A matemática da cooperação

Para chegar a essa conclusão, a equipe de pesquisadores liderada por Jasmine Vieri, da Universidade de Cambridge, mapeou uma área de 1.200 acres do sistema com um detalhe sem precedentes. Com base nesse mapa, eles modelaram o custo de trabalho necessário, considerando uma população local de aproximadamente 1.600 pessoas, com metade delas formando a força de trabalho. Os resultados, segundo reportagem do portal 404 Media, foram surpreendentes.

O modelo estimou que as estruturas na área de amostragem poderiam ter sido construídas em menos de seis semanas, utilizando apenas metade da estação seca. Para uma única família, a construção de um dos maiores cumes levaria meses; para uma força de trabalho coletiva de 800 pessoas, seria questão de horas. O baixo custo de trabalho, afirmam os autores, torna a necessidade de uma elite governante para forçar a construção altamente improvável. A obra era factível em escala comunitária, com renovações geracionais que exigiriam apenas alguns dias de trabalho anual.

Uma lição para o presente

O estudo sobre a cultura Zenú é parte de uma mudança de paradigma mais ampla na arqueologia, que começa a questionar a projeção de nossas próprias estruturas sociais hierárquicas sobre o passado. “Evidências arqueológicas de outras regiões e períodos continuam revelando casos em que as pessoas se uniram para alcançar metas ambiciosas e coletivas por meio da cooperação, em vez da coerção”, afirmou Vieri ao 404 Media.

Além do valor histórico, a pesquisa aponta para uma lição de sustentabilidade. O sistema Zenú foi projetado para trabalhar com a água, absorvendo o excesso durante as chuvas e liberando-o nas secas, o que prevenia enchentes e secas simultaneamente. Em contraste, diques modernos construídos pelo governo colombiano na mesma região frequentemente se rompem. A solução pré-hispânica de gerenciar o fluxo em vez de bloqueá-lo oferece um modelo para estratégias de adaptação climática.

A engenhosidade dos Zenú demonstra que a colaboração pode erguer maravilhas de engenharia sem a necessidade de um comando central. O estudo não apenas reescreve um capítulo da história colombiana, mas também disponibiliza uma metodologia de código aberto que pode ser aplicada a outras civilizações, permitindo investigar a verdadeira relação entre a escala de uma obra e a organização política por trás dela.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media