A nova geração da vacina contra herpes zóster, conhecida como Shingrix, pode oferecer um benefício secundário significativo: a proteção cardiovascular. Um estudo publicado na revista Nature Medicine e conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford encontrou uma associação entre a vacina e um risco reduzido de acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca.

A pesquisa, que se baseou em um "experimento natural" ocorrido nos Estados Unidos, contorna um viés comum em estudos observacionais, fornecendo evidências mais robustas. A tese é que o benefício não vem apenas da prevenção da doença em si, mas de um mecanismo imunológico ativado por um componente específico da vacina mais moderna, conforme reportado pela New Scientist.

O experimento natural

O grande trunfo do estudo foi sua metodologia. Os pesquisadores analisaram dados de mais de 72 mil pessoas com 60 anos ou mais. O ponto de inflexão foi outubro de 2017, quando o sistema de saúde americano trocou a vacina padrão, Zostavax (com vírus atenuado), pela Shingrix (baseada em proteína e um adjuvante). Ao comparar os dois grupos — um que recebeu a Zostavax pouco antes da troca e outro que recebeu a Shingrix logo depois —, os cientistas mitigaram o chamado "viés do usuário saudável", onde pessoas que se vacinam já tendem a ter estilos de vida mais saudáveis.

Os resultados mostraram uma diferença modesta, mas estatisticamente relevante. Em um período de 3,5 anos, 9,6% do grupo da Shingrix desenvolveram problemas cardiovasculares (insuficiência cardíaca, AVC ou obstrução de artérias), contra 10,9% no grupo da Zostavax. Embora a diferença percentual seja pequena, o impacto em números absolutos pode ser grande, dado o volume de casos de doenças cardíacas na população.

Além da prevenção

A principal hipótese para essa proteção extra reside no adjuvante da Shingrix, o AS01, uma substância que potencializa a resposta imune. Pesquisas anteriores sugerem que este componente pode "reprogramar" células imunes, como os monócitos, para produzir menos moléculas inflamatórias que contribuem para a obstrução de vasos sanguíneos. A própria prevenção mais eficaz da herpes zóster também conta: infecções virais geram inflamação sistêmica, que por sua vez sobrecarrega o sistema cardiovascular.

A evidência, contudo, ainda não é conclusiva. Um ensaio clínico randomizado com 160 mil pessoas na Dinamarca está em andamento para testar a causalidade direta entre a Shingrix e a redução de doenças cardíacas e demência, com resultados iniciais esperados para 2027. Este próximo passo será fundamental para validar as observações do estudo atual.

Se os resultados se confirmarem, a vacina contra herpes zóster poderá ser vista não apenas como uma medida preventiva contra uma infecção dolorosa, mas como uma ferramenta de saúde pública para mitigar riscos cardiovasculares em populações mais velhas. A discussão se deslocaria de uma simples vacinação para uma estratégia de longevidade e redução de custos para os sistemas de saúde.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist